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Pedro Mariano conta que descobriu o tamanho de Elis Regina após sua morte

Cantor lança CD e fala das difíceis lembranças da infância

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2012 | 03h11

Antes de entrar em estúdio para fazer seu oitavo disco, Pedro Mariano esboçou dois itens que considerou obrigatórios à trupe que formava: 1) Chegar ao que ele chama de 'som grande', algo cheio, livre, sem podas de estúdio e mais orgânico. 2) Conseguir isso sem apelar às parafernálias de baterias enormes e programações eletrônicas. Inspirado por recentes gravações sobretudo inglesas, Jamie Cullum é citado como uma referência importante, ele chega ao resultado de 8, um álbum com doses altas de um groove que fica cada vez mais incomum na música brasileira 'minimalista' moderna. Com participações de Jair Oliveira e Luiza Possi, seu lançamento será em 4 de fevereiro, no Citibank Hall.

Em um ano especial em que fecham 30 anos da morte de Elis Regina na próxima quinta-feira, Pedro, filho de Elis com Cesar Camargo Mariano, não se nega a falar da mãe. E tem em mãos um projeto ainda sendo rascunhado só com homens cantando as músicas de Elis. Suas lembranças são vivas, mas ele toma cuidado para não se apoderar de memórias alheias ou dizer que viveu o que pensa que viveu. Enfim, o que tem certeza é de que, há 30 anos, quando tinha seis, a barra ficou bem pesada.

Como você ficou sabendo da morte de Elis?

Eu recebi a notícia pelo Sergio Chapelin, pela TV. Estava tudo muito conturbado, e me mandaram ver televisão. Eu fui ver e entrou o plantão do Jornal Hoje. Recebi a notícia e fui na cozinha avisar meu pai. "Estão falando que a mamãe morreu na televisão." A TV ficou sabendo antes de nós. Acho que meu pai já sabia, eu não sei.

E esta é a memória que você tem...

É muito frustrante para mim. Eu gostaria de ter lembranças afetivas, saber como era o toque das mãos da minha mãe. Me lembro do perfume, isso porque depois que ela foi embora os perfumes ficaram em casa e minha irmã os usava.

Quando você descobriu o tamanho de Elis Regina?

Infelizmente quando ela morreu. Acordei no dia seguinte e fui para a escola, o Pueri Domus. E me vi dando 'entrevista coletiva' com seis anos de idade. Ouvia todo tipo de pergunta, chamaram minha mãe de um monte de coisas e eu matando tudo no peito. Aprendi muito com o meu pai a lidar com isso. Ele perguntou se eu tinha certeza de que queria ir para a escola, e avisou: "Vai acontecer isso, isso e isso". E eu "não, quero voltar para a escola". Me meti em muita briga por causa disso. Muitos anos depois eu ainda tinha pouca tolerância com o assunto. Eu entrava na classe e minha professora olhava pra mim e começava a chorar. Até então era a dona Elis, minha mãe. No dia seguinte à morte, virei o filho da Elis Regina, e comecei a ver o tamanho da encrenca, muitas vezes virei um bibelô nas mãos de pessoas maldosas. Aí comecei a criar os meus dispositivos de segurança para me proteger das maldades.

Como por exemplo....

Várias vezes cheguei à casa de um amigo e ele me apresentou: "Mãe, esse aqui é o filho da Elis Regina". Eu ia embora e nunca mais falava com o cara. Ele não fazia por maldade, mas este era meu único dispositivo de segurança. Cheguei a ouvir de professor, depois de tirar uma nota ruim: "Você acha que vai ter moleza aqui só porque é o filho da Elis Regina?". E eu quase levantava para brigar com o cara. Eu e meus irmãos (João Marcello Bôscoli e Maria Rita) não fomos seres humanos problema porque, cara, acho que papai do céu nos deu uma paciência do tamanho do mundo, um estômago desse tamanho...

Mas como segurar a onda?

A gente tinha tudo para se afundar em problemas, mas conseguimos administrar as coisas muito bem. E parte desse mérito é porque eu chegava sempre em casa e contava o que acontecia na escola ao meu pai. E ele dizia (se emociona): "Cara, isso vai acontecer a sua vida inteira. A sua mãe foi muito, mas muito grande...".

Algum mistério para explicar o fato de não ter surgido outra geração de compositores igual àquela, sobretudo dos anos 70?

Os caras tinham de rebolar durante a ditadura. Para criar ali, eles tinham de ser geniais e driblar nas letras a censura. E o público, oprimido, se identificava. Os artistas criavam muito naquelas condições.

 

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