Pedro de Lara deixou um mundo sorrindo

Uma das figuras mais carismáticas da TV morreu aos 82 anos. Data pode ser triste, a lembrança, não

Marc Tawil, do Jornal da Tarde,

14 de setembro de 2007 | 00h41

"Quando Pedro de Lara quebra um espelho, os cacos têm sete anos de azar"; "Pedro de Lara certa vez foi contratado para ser espantalho em uma fazenda, mas até a plantação acabou fugindo dele"; "Pedro de Lara ofereceu sua alma ao Diabo, mas esse não se interessou." No dia da morte de uma das figuras mais lendárias da TV brasileira, o humorista Pedro de Lara, aos 82 anos, de câncer na próstata, o Brasil sorriu. Não que ele não merecesse as lágrimas, pelo contrário, mas o humorista passara, havia muito, para um plano bem mais nobre, em que vivos e mortos dividem o mesmo palco: o imaginário popular.   Galeria de fotos  Por décadas, Pedro de Lara visitou a casa dos brasileiros nas noites de domingo - camélia rosa na lapela do terno listrado, gravata borboleta, lírios brancos em uma das mãos, microfone na outra, declamando poesias e proclamando ditados em que apenas ele via significado. Pernambucano de Bom Conselho nunca deixou de dar os seus aos que cruzavam o seu caminho nas ruas, praças e eventos. Era visto diariamente no Centro de São Paulo, sozinho, andando a pé. Era atencioso com quem o parava e respondia a dúvidas dos fãs sobre Silvio Santos e outros colegas de bancada como Sônia Lima. Antes da TV teve profissão nobre, embora desconhecida, " interpretador de sonhos" no programa de rádio de Haroldo de Andrade (Rádio Globo), em meados da década de 1960. "Primeiro era menguinho, depois virou mengo, depois virou mengão, depois virou mingau", profetizou, certa vez, sobre a má fase do Flamengo. Foi aclamado. No início da década de 1970, o rosto carrancudo e o visual extravagante (cabelos compridos, bigode de motociclista e flores, sempre flores) viraram referência no júri do Show de Calouros, parte do Programa Silvio Santos. De 1980 em diante, integrou outro sucesso da TVS, o Programa do Bozo. Era Salsi Fufu, o mais estressado da turma, parceiro de Papai Papudo e Vovó Mafalda. Ao deixar a TV, voltou à antiga alcunha de ‘adivinhador’, agora como astrólogo das revistas Amiga e Sétimo Céu e da Rádio Atual. Aventurou-se ainda como empresário de sua esposa Mag de Lara e como escritor, ator e cantor. "No meu disco, o pau come, é nordestino da bexiga porreta!" - dizia, numa tradução livre sobre seu álbum que, como se vê, não significa nada. Sua última grande atuação foi como jurado no extinto Gente que Brilha, também do SBT, em 2004, espécie de Show de Calouros que não decolou. Da doença que o matou, o câncer, nunca falou. Recolheu-se em casa, ao lado da família. Vai-se homem, fica o mito. E suas palavras, publicadas no Livro da Sabedoria (Editora Madras): "Todo pai corujão faz do seu filho um bobão" e "na vida tem que ter estilo, quem não tem, não é isso nem aquilo". Pedro de Lara é coisa nossa.

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