Pedro Cardoso: mais do que as graças do Agostinho

O ator Pedro Cardoso quer status de escritor. Ele escreve suas peças desde os anos 70, quando enchia salas alternativas com o ator Felipe Pinheiro. Agora lança "Os Ignorantes", monólogo dos anos 80 que virou um romance ágil, atual, trágico. O público gostou, a crítica ignorou e Pedro vai em frente. Remontou "O Autofalante", que fica em cartaz no Rio até o fim de novembro, com vistas a um novo livro. O espetáculo lota o Teatro das Artes com público que vai de adolescentes a seus avós. ´Isso me deixa vaidoso´, disse ao Estado após uma récita. Ele deve a popularidade atual à TV, mas batalhou por isso. E aproveita porque sabe que, na telinha, não há carreira consolidada. Eis um resumo da conversa.Por que você voltou a esses dois textos, Os Ignorantes e O Autofalante?Escrevi o primeiro aos 27 anos e o segundo aos 31. Em ambos, ficou a sensação de algo incompleto. Com Os Ignorantes cheguei a um termo para publicar. Já com "O Autofalante"...Teatro fica pronto?O espetáculo, nunca. O texto, talvez. O livro "Os Ignorantes" foi uma libertação. Se alguém quiser remontar, me envaidece, mas escrevi para ser lido. Teatro não é literatura, mas o que faço, desde os tempos do Felipe Pinheiro, é boa literatura porque é boa dramaturgia. Só que os eruditos nunca reconheceram esse valor. Então eu fiz o livro para enfrentar essa diferença com o mundo intelectual e acadêmico. O público compra o livro, lê e adora, mesmo sem ter visto a peça.No palco, você parece improvisar o texto. Em que medida isso acontece?Muito pouco. Trabalho arduamente a dramaturgia e a platéia entende a idéia com uma, duas ou três palavras. Quando acontece, passo à frente. Em "O Autofalante", quero mostrar que os meios de comunicação são apenas emissão de mensagem, não de recepção. Isso é opressão à cidadania. Não sei se a frase ´Televisão não tem orelha´, no início da peça, é a melhor para esse conteúdo. Então mudo as palavras, mas não é improviso porque o tema está colocado. Em 1990, quando fiz a peça, previa a desorganização do personagem, mas faltava a mola que o jogava neste estado. Então, pensei em dois fatos. No mundo moderno, as pessoas não têm voz. A única comunicação é de massa. O único vínculo é o trabalho, se a pessoa não o tem, fica fora do mundo. Escrevi a circunstância de quem perde o emprego. Na entrevista, lhe pedem o número de contato e ele gasta o que tem num crediário. Não agüenta esperar e enlouquece. A ansiedade o faz pensar que todos ligam para outra pessoa e ninguém consegue falar com ele, porque é engano.Não parece comédia, mas o público ri muito. Era essa sua intenção?Há anos desisti de determinar se uma peça é comédia. Seria repetir o mundo em que a pessoa não decide nem se quer rir ou não. Você não riu mas pode ter apreciado. Outros riram e apreciaram. Não acho que artista deva determinar o choro, o riso ou a comoção. O artista deve narrar a história e a emoção livre.O riso acontece porque o público vem atrás do Agostinho de "A Grande Família"?Não sei. Outro dia, com dez minutos de peça, uma senhora falou ´Ih, não tem nada de Agostinho!´ É provável que as pessoas venham por causa da TV, mas se sentem respeitadas por não encontrarem aqui o que vêm lá. É um trabalho autônomo. Se fosse um simulacro do que faço na tevê, seria patético.Como é sua história na televisão?Muito acidentada. Como ator, comecei com mais de 30 anos e tive dificuldades. Havia desproporção entre o que vivia no teatro e o que eu podia na televisão, que trabalha com padrões estéticos muito estreitos. Queria os benefícios, econômicos e de popularidade da TV e lutei por isso. O primeiro convite veio do Gilberto Braga, que vira o especial "Todas as Mulheres do Mundo", do Domingos de Oliveira, meu amigo que me impôs à Globo como protagonista. Depois o Maurinho Mendonça me chamou para a "Comédia da Vida Privada", programa que eu escrevia. Então teve a minissérie "Anos Rebeldes", mas ainda era um cara que não fazia diferença. Fiz "Vida ao Vivo", a convite do Luiz Fernando Guimarães, e aí tinha que ser eu. Nessa hora, você começa a ter valor econômico. Quanto mais você pode ser mudado, menos vale. Depois fiz o "Fantástico" e veio o Agostinho, que comecei muito despretensiosamente. O programa inteiro foi um sucesso e me estabeleci como um ator importante na tevê, no momento. Mas foi muito lento, eu me dediquei, não me dei de graça.Hoje você sente sua carreira consolidada na televisão?Não existe consolidação. Os meios de comunicação são empresas industriais, com aferição muito precisa de seus produtos. A qualquer momento, se você não é mais apreciável para aqueles industriais, o que sobra é uma certa caridade em respeito ao tempo em que você foi produtivo. Não quero isso.Estar na TV faz suas peças lotarem teatros?É difícil responder cartesianamente. É uma coisa e outra. A tevê ajuda a encher uma casa grande. É muito difícil lotar o Claro Hall, com 3,5 mil pessoas, sem ser conhecido. Se eu falar não ou sim estarei mentindo. É um jogo entre a qualidade do teatro e o fato de eu estar, no momento, conhecido.Este ano você faz filmes, o seriado e teatro. É bom trabalhar tanto assim?Não. Gosto de fazer uma coisa de cada vez e fico cansado, assoberbado. O mundo contemporâneo nos exige do que temos vontade de fazer e oferece mais do queremos consumir. Quando vejo o jornal de domingo, fico deprimido de imaginar o esforço que foi fazer aquilo tudo e quem vai ler aquilo tudo. O modo de produção contemporâneo só é industrial. O fazer artesanal não encontra nenhum trânsito. Dois filmes, a série e a peça no mesmo ano são coincidência porque tudo era irrecusável. O filme de "A Grande Família "atrasou. "Casa de Mãe Joana", do Hugo Carvana também. Aceitei o convite do Carvana sem perguntar o dinheiro porque não há como dizer não. Ele sintetiza a chanchada e o Cinema Novo. Tem importância cultural e foi agradabilíssimo. A peça é minha, eu tinha um compromisso com a sala de espetáculos. Teatro cansa menos porque busco o contato com as pessoas e os espetáculos não têm amarras, prisão, tem muita liberdade para mim e me renova.Sua platéia tem uma quantidade de jovens rara no teatro carioca. Isso surpreende?Isso me deixa vaidoso. Desde sempre, os espetáculos que fiz com Felipe e sozinho tiveram de 8 a 80. Aqui não tem pobres porque é zona sul, mas se eu for para uma sala na periferia levo o espetáculo igual, não mudo uma palavra para a platéia que, em vez de pagar R$ 40, paga R$ 10.E o que você pretende fazer nos próximos meses?Fico aqui até o fim do ano e depois passo um mês e meio em São Paulo. E vou escrever o livro de "O Autofalante". Acho que o texto fica no ponto dentro de dois meses.

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