Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

Pedrada verbal

Criolo e sua geração ampliam os territórios do rap nacional

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Ainda há catedráticos e acadêmicos insistentes em defender que versos musicados são um tipo de literatura menor. E a conversa piora quando o assunto se trata das criações (sub)urbanas feitas nas periferias. Aos desavisados seria bom lembrar que a poesia já surgiu cantada, lá atrás, com os menestréis. Aos conservadores, basta avisar que já está mais do que na hora de o rap ser encarado como música e que, no começo de maio, será lançado mais um disco assertivo da crescente qualidade do gênero: Nó na Orelha, de um maluco, no melhor sentido da palavra, conhecido como Criolo Doido.

O primeiro disco da carreira de Kleber Gomes, de 35 anos - sendo 23 deles dedicados ao rap -, foi concebido de forma totalmente independente pela Matilha Cultural e chegará ao mercado em vinil e em CD, este contendo uma faixa bônus, remix feito por um dos produtores do disco, Daniel Ganjaman, para o tema Samba Sambei.

Criador das Rinhas de MC"s em 2006, saudáveis batalhas onde os versadores se enfrentam rimando de improviso, ao lado do DJ Dan Dan, Criolo teve sua grande referência no exterior nos nova-iorquinos do Wu Tang Clan. No Brasil, destaca nomes, como RZO, Consciência Humana, Sistema Negro e tantos outros, que, nos anos 1990, já tratavam de problemas sociais que ainda persistem. Continuar abordando tais temas nas letras de rap, com poucas mudanças no quadro social, não traria desapontamentos ao compositor? "Uma coisa é desesperança, outra é enxergar a realidade. Falar disso de um modo contundente não significa que você está desesperançoso", diz.

Assim como os sambistas do Cacique de Ramos, no Rio, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Almir Guineto, que sabem improvisar como partideiros e ao mesmo tempo esbanjar lirismo em canções melodiosas, Criolo é um dos pontas de lança de uma geração que sabe fazer um rap direto, "pedrada", como ele define, mas ultrapassa a pequenez das fronteiras de gêneros.

Prova disso é seu disco, com afrobeat, soul, samba, reggae e até bolero, mas ele discorda da afirmação de que hoje se faça um rap musicalmente mais rico do que aquele feito por seus antecessores. "A diferença é que você batia na porta de um trompetista, de um guitarrista, e eles riam na sua cara. Foi o mundo que se fechou para o rap. Antigamente os MC"s faziam a coisa acontecer. Não tinha riqueza naquilo?", questiona Criolo.

Nascido em Santo Amaro, criado no Grajaú, na zona sul de São Paulo, filho do metalúrgico Cleon e da professora Vilani, quando mais jovem Criolo escutava também nomes como Moreira da Silva, Nelson Gonçalves, Martinho da Vila e Dona Ivone Lara. Nada que configurasse um ritual de parar o que fazia para sentar diante de uma vitrola.

"Eu não tenho tempo pra isso, "man". Dependendo do CEP, você abre o portão de casa e, do outro lado da rua, já tem um carro tocando um som, a vizinha que abre a janela e começa a cantar, é assim..."

Independente de correr atrás ou de a música chegar até ele, a verdade é que Criolo cita referências das mais variadas. Em Nó na Orelha, fala de Hélio Oiticica, Frida Kahlo, Di Cavalcanti, Fela Kuti, Mulatu Astatke, a Pasárgada de Manuel Bandeira, o Índio de Caetano Veloso, Cartola, Sabotage, Rappin Hood e Facção Central.

Levantando um álbum. Gravado e mixado por Daniel Ganjaman, em 2010, Nó na Orelha teve produção e arranjos de quem entende do riscado. O próprio Ganjaman - que trabalhara com Sabotage, Racionais, Helião e Negra Li, além de Planet Hemp e Otto - e Marcelo Cabral (dos grupos The Marginals e Gafieira Nacional), que já esteve envolvido em projetos com Lurdez da Luz, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Instituto e Guizado. "Eu aprendi demais. Na época de gravar, apresentei 50 músicas. Eles me ajudaram a selecionar as que tinham a ver com o projeto e me ensinaram como levantar um álbum."

O resultado é um disco com temas autorais (sendo um deles, Mariô, em parceria com Kiko Dinucci), extremamente diferentes entre si, mas que constroem uma atmosfera coerente.

No balaio sortido, sempre com letras originais de Criolo, tem rap autêntico em Grajauex, Subirusdoistiozin, que já vinham fazendo barulho na internet, e Sucrilhos, que ganhou novo arranjo, com destaque para a percussão de Mauricio Bade.

Mas também há espaço para o pegado afrobeat Bogotá, com belo arranjo de metais para o sax de Thiago França (tenor) e de Anderson Quevedo (barítono), além do backing vocal de Verônica Ferriani e Juçara Marçal, também presente no crítico samba Linha de Frente, com o cavaquinho impecável de Rodrigo Campos. E Nó na Orelha ainda tem o soul dolente de Não Existe Amor em SP, o bolero Freguês da Meia-Noite, o reggae Samba Sambei e a densa Lion Man.

Com show marcado para o dia 2 de junho, no Sesc Vila Mariana, e despertando a atenção do exterior, como do projeto Noisey, da revista Vice, que destacou o compositor entre autores de mais de 40 países, Criolo desconversa sobre trabalhos futuros, como um disco de samba e outro com músicas infantis. Isso à parte, sabe-se que Nó na Orelha, já consistente no estúdio, tem tudo para ser ainda mais quente no palco, louvando sempre um ponto primordial para a criação, exaltado por Criolo: fazer música verdadeira e que tenha como único objetivo sensibilizar quem a escuta.

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