Pedra fundamental

Cada reedição de livro consagrado acresce importância à já reconhecida. Esta edição especial de Alguma Poesia (que bem podia ser o padrão de várias outras, de outros grandes autores), organizada por Eucanaã Ferraz em comemoração aos 80 anos do livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), instiga nova reavaliação. Por que especial e qual possível reavaliação?

ALCIDES VILLAÇA, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

No centro do volume está a reprodução fac-similar do exemplar pessoal do poeta, com anotações suas. E eis que estamos diante de um livro que desconhecíamos, em que os versos se esparramam à vontade, num mais lento andamento de leitura, sem a compressão desfiguradora das edições em papel-bíblia e letrinha miúda. Além disso, as modificações assinaladas são muito sugestivas, como as do poema Casamento do Céu e do Inferno: o título original era Fantasia (sem alusão, portanto, ao poema de William Blake) e o irônico e surpreendente verso "Tirante Laura e talvez Beatriz" (mais alusões a grandes poetas) era antes um prosaico "Tirante dois ou três". E talvez a rendição da grafia abrasileirada goche à francesa gauche, que marcou o Poema de Sete Faces, mereça uma ruga na testa de leitor mais meticuloso.

A apresentação de Eucanaã Ferraz realça questões centrais e adjacentes ao livro: as primeiras publicações esparsas dos poemas; os antecedentes da primeira edição, num projeto ainda embrionário; a decisiva troca de cartas entre Drummond e Mário de Andrade; as reações das leituras dos amigos. Dentre estas, uma precisa síntese de Manuel Bandeira acerca do impactante e repetitivo No Meio do Caminho: "Há ocasiões em que no cansaço cerebral só fica uma célula lírica aporrinhando com uma baita força emotiva." Haverá compreensão mais direta? O volume se completa com uma reunião de cartas, em que amigos agradecem e comentam o livro, fechando com uma coletânea de críticas em periódicos, publicadas no calor da hora.

Essa teia de relações justifica plenamente o título integral - Alguma Poesia - O Livro em Seu Tempo. Devolvidos súbita e imaginariamente à época da publicação, deparamo-nos com as vozes e com a ortografia de um outro mundo das letras, mundo em grande parte já perdido, do qual no entanto subsistem, com força viva e atualizada, poemas como esses, do primeiro livro de Drummond. E por que terão subsistido?

Há sempre a clássica razão de que as obras artísticas são duradouras por constituírem uma forma particular de beleza, manifestada como evidência técnica da precisão da linguagem e do senso de composição: continuam belas e persuasivas as falas de Shakespeare e as sonatas de Beethoven. Mas há também razões mais localizadas e perscrutáveis: o Drummond de Alguma Poesia, em meio aos programas modernistas, e por eles impelido à criação poética, trocou o vezo afirmativo ou mesmo utópico daqueles discursos pelo impacto de uma assumida ineficiência individual. O poeta deu uma volta no parafuso dos paradoxos: acatou a propulsão libertária dos modernistas para com ela protagonizar a figura do sujeito meio paralisado, inapto diante de tanta liberdade de movimentos.

O impulso erótico, por exemplo, despertado pelas cinematográficas "pernas brancas pretas amarelas" que desfilam no bonde aberto, traz também o desconforto de ser excessivo ("para que tanta perna, meu Deus?") aos olhos de um gauche, de um sujeito deslocado, com sua lucidez sem aplicação imediata. Ora, que saída melhor que a de aproveitar essa instância de insuficiência como uma nova forma de libertação, como expressão desobrigada à coerência, ao centramento e aos projetos coletivos? Em seu livro de estreia, firme baliza até mesmo para as posições futuras que parecerão negá-lo, o poeta privilegia o poético desse espaço da hesitação psicológica, da inconstância do estilo e do isolamento social. Tal perspectiva parece especialmente saudável a cada vez que dão as caras a rigidez da ideologia, o triunfalismo da técnica, o pragmatismo político. A timidez, na voz de Drummond, eleva-se em pleno colóquio e abre uma cunha crítica nas certezas espertas ou ingênuas.

Um poema como Explicação, por exemplo, 80 anos depois, continua a escancarar uma das nossas matreirices essenciais: quem "lê o seu jornal, mete a língua no governo. / queixa-se da vida (a vida está tão cara)" também confia em que tudo "no fim dá certo" . O providencialismo da fé interesseira e da política oportunistas fica escandalosamente exposto. Já em sua primeira poesia, Drummond dispensa-nos a todos da obrigação da vitória, da crença nas teses unânimes e sugere que as tímidas verdades pessoais, uma vez expressas, são pequenos núcleos revolucionários da vida. Tal proeza não foi e continua não sendo pequena, diante de máquina do mundo e de tantos donos da verdade.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

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