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Peças releem tragédias gregas sob o ponto de vista feminino

Em quatro montagens vistas recentemente em São Paulo, figuras da mitologia clássica tiveram suas trajetórias recontadas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2013 | 21h03

Em tempos politicamente corretos, as canções infantis já tiveram que ser reinventadas. A emancipação feminina e a infinidade de arranjos afetivos da pós-modernidade também colocaram os contos de fada na berlinda: nada de donzelas vilipendiadas à espera de príncipes e finais felizes para sempre. Não é de se espantar, portanto, que as tragédias gregas experimentem atualização semelhante.

Em quatro montagens vistas recentemente em São Paulo, figuras da mitologia clássica tiveram suas trajetórias recontadas: o que pode significar, em alguns casos, narrar essas histórias a partir do ponto de vista das mulheres envolvidas. E, consequentemente, forjar novos arquétipos femininos.

Ao escrever Jocasta, o diretor Elias Andreato decidiu trazer a versão dessa personagem – tratada invariavelmente como coadjuvante – para a conhecida peça Édipo Rei, de Sófocles. “É a chance de ela tornar-se protagonista da própria história”, considera o encenador sobre a mulher que se casou com o filho.

Por caminho semelhante, seguem ainda os espetáculos Medeia Vozes, Antígona 2084 e Antígona Recortada, capazes de reler essas personagens sob novos pressupostos e de aproximá-las, em muitos sentidos, das agruras vividas por mulheres em outras épocas. Inclusive na nossa.

Antígona Recortada marca a segunda incursão do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos pelo universo dos gregos. Primeiro, concebeu Orfeu Mestiço (2011), título que mostrava um homem que perdeu a mulher durante a ditadura brasileira. E, tal qual o enamorado grego, “descia aos infernos” para resgatá-la. Desta vez, a dramaturga e diretora Claudia Schapira “atualiza” a saga de Antígona, aquela que pairou durante os séculos como um exemplo de amor filial.

O mote da criação está de acordo com a tragédia de Sófocles, na qual a personagem principal enfrenta seu tio, o rei Creonte, por não aceitar que seu irmão morto não tenha o direito de ser enterrado. Mas a peça que está em cartaz na sede da companhia, no bairro da Pompeia, também poderia ter seu enredo retirado dos noticiários policiais de qualquer lugar do mundo. O que aparece destacado aqui é a trajetória de jovens meninas da periferia, confrontadas com o extermínio de seus irmãos envolvidos com o tráfico de drogas.

“A construção de novas utopias depende da elaboração de uma nova mítica”, defende Schapira. “Voltar à tragédia grega é revisitar conceitos com os quais ainda estamos operando para, a partir daí, perceber quais são os erros que a gente repete.”

Diante de uma guerra lutada por homens, tudo o que vem à cena surge pela voz de mulheres. “É um relato dessas meninas-mães, filhas que desde cedo cuidam dos irmãos enquanto suas mães trabalham para sustentar a família, quase sempre sem pai.”

A maneira de contar essas histórias também guarda uma particularidade: distancia-se da forma clássica das tragédias e opta por utilizar a linguagem do hip-hop. “É um gênero que surge nos anos 1970 como forma de dar voz a quem não tinha. Até por isso, faz todo sentido utilizá-lo aqui”, comenta Roberta Estrela D’Alva, intérprete de Antígona Recortada e vencedora do Prêmio Shell de melhor atriz em 2012.

Antígona 2084, que acaba de estrear na Funarte, coloca a heroína grega em um futuro apocalíptico. Não se detém especialmente sobre conflitos ligados a questões de gênero. Mas preocupa-se essencialmente em refletir sobre as questões políticas atemporais levantadas por Sófocles.

A política é também a pedra de toque de Medeia Vozes, montagem do grupo gaúcho Ói Nóis Aqui Traveiz, que acaba de passar pela capital paulista. Protagonizado por Tânia Farias, o espetáculo convoca ao palco outras “Medeias”, mulheres que viveram em épocas e contextos distintos, mas enfrentaram perseguições semelhantes. Entre elas, a indiana Phoolan Devi, as ativistas alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof e a modelo somali Waris Dirie, que denunciou a mutilação genital da qual foi vítima e tornou-se embaixadora da ONU. “Todas elas compartilham um traço de força semelhante: tomaram para si a responsabilidade por seus destinos”, aponta Tânia.

Um ímpeto que conduziu o grupo de Porto Alegre nesse espetáculo foi o de livrar Medeia da imagem que se cristalizou através dos tempos. Sob essa perspectiva, ela não é mais apresentada como uma infanticida cruel e vingativa. Antes, desponta a personagem que pagou um preço alto por sua altivez e, especialmente, por não se deixar subjugar pelos ditames masculinos, desafiando a ordem estabelecida. 

Édipo assassinou o próprio pai sem saber. Depois, ainda ignorante, casou-se com a mãe e teve com ela quatro filhos. O episódio permeia o imaginário ocidental, imortalizado por Freud em sua definição do “complexo de Édipo”. Mas quem foi essa mãe? A atriz Débora Duboc apresenta no Teatro Eva Herz o monólogo Jocasta – criação que vem absolver essa mulher e, finalmente, dar-lhe o lugar de direito dentro de uma tragédia que também foi dela.

"Jocasta permaneceu calada diante de tudo isso e nunca ninguém quis saber qual era a sua versão”, comenta o diretor e autor da adaptação, Elias Andreato. “Além disso, essas são questões ainda muito prementes. A cada cinco minutos, uma mulher é vítima de agressão no Brasil. Isso não é passado.

Nessa espécie de ritual de expiação de culpas, Andreato não fez de sua personagem-título uma mártir. Ainda que enredada em um jogo de poderes alheios, a criatura delineada no espetáculo era uma mulher altamente sexualizada, que também teve direito a sua dose de prazeres. “É muito difícil se livrar desse estigma de sofrimento que envolve as mulheres”, comenta o diretor. “O que temos são fábulas em que as princesas estão em função dos príncipes, em que as mães estão sempre preocupadas em cuidar e servir. Precisamos criar novos mitos.”

ANTÍGONA 2084

Funarte. Al. Nothman, 1058. 6ª. e sáb., 21h. Dom., 20h. R$ 20. Até 15/12

ANTÍGONA RECORTADA

Núcleo Bartolomeu. R. Dr. Augusto de Mirada, 786. 6ª. e sáb., 21h. Dom., 20h. Pague quanto quiser. Até 22/12.

JOCASTA

Teatro Eva Herz. Av. Paulista, 2073. 3ª e 4ª, 21h. R$ 40. Até 11/12 

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