Peças do Festival de Londrina falam de morte com humor

Até agora o Festival Internacional de Londrina, que começou na quinta-feira e termina no dia 25, mostrou que não foi por inércia que chegou à sua 39.ª edição como um dos mais importantes do País. Nesta primeira semana de programação, chega a ser surpreendente a qualidade dos espetáculos apresentados, tanto nacionais quanto internacionais.Depois do inovador Sopro, do Lume de Campinas, e do denso Pinocchio, do grupo mineiro Giramundo, destacaram-se dois outros espetáculos, Caetana e Art of Dying. Ambos têm como tema nada menos que a morte. Ambos arrancam risos da platéia ao tratar de tal assunto na chave do humor.No Nordeste, Caetana é um dos nomes que se dá à morte. No palco, as atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro vivem, respectivamente, a benzedeira Benta e Caetana. O espetáculo tem direção geral, adereços, figurinos e bonecos do espanhol radicado em Pernambuco Moncho Rodriguez, que vem pesquisando o cômico popular em busca de um teatro de raízes nordestinas. A julgar por Caetana, com êxito.No palco, o texto já é uma delícia de se ouvir, muitas falas rimadas, inspiradas na linguagem de cordel. O aparato cênico, desmontável, lembra um palco de rua em formato de picadeiro e foi instalado no centro do palco do Teatro Ouro Verde, de 850 lugares. Ali, Benta conversa ora com o público, ora consigo mesma, ora com sua inseparável garrafa de pinga e ironiza o medo da morte em seus ´clientes´. Quando o vivente chega ao mundo já sabe que vai morrer, então por que quando chega a hora sempre reclama, pergunta-se ela. Tem a vida inteira para fazer as coisas, mas é nessa horinha que resolve acertar suas contas. Assim, no primeiro terço da peça ela faz rir com seu jeito despachado de falar de algo inevitável, mas sobre o que ninguém quer pensar. Mas chega o momento em que Caetana vem buscá-la. E aí a coisa muda totalmente de figura.Ela faz exatamente tudo aquilo que criticou, desde passar ´literalmente´ por uma dor de barriga, até tentar negociar com a dita, oferecendo casa, quintal, plantação, criação doméstica. E ainda vai repetir o comportamento que mais criticara: passa um tempo como alma penada, no mundo daqueles que já morreram, mas se recusam a passar para o outro lado. Ali faz também um acerto de contas com seus desafetos. Fabiana, além de interpretar Caetana, manipula todos os bonecos/personagens que contracenam com Benta. Criados por Rodriguez, os bonecos são a um só tempo simples e expressivos. Uma vassoura de melga, por exemplo, transforma-se num sedutor rapaz, que um dia Benta desprezou, por puro orgulho. Caetana é uma saborosa atualização do teatro cômico e popular nordestino que merece ser visto por público mais amplo.O italiano Paolo Nani e o islandês Kristján Ingirmasson integram uma clássica dupla de clowns em Art of Dying. Chega a ser impressionante a capacidade de ambos de surpreender o público com novas gags em números clássicos. A primeira grande qualidade desse espetáculo está na limpeza dos movimentos: ambos têm excelente preparo físico e executam coreografias complicadas com perfeição. Assim, por exemplo, numa mesa, eles comem da mesma panela, empurrada de um cabeceira a outra. Obviamente isso ´dá errado´ de diferentes maneiras. Num dado momento, um deles atende o celular e se vê obrigado a amparar a panela num dos pés, come deste modo, e joga para o outro, sempre com o pé. Sob a aparência clássica de anarquia dos palhaços, Paolo e Kristján trabalham antes de tudo com precisão e números muito bem treinados.Ambos exploram ainda, com muito talento, outra característica básica dos palhaços: mostrar o patético da vaidade humana. O tempo todo, brincam com estar ora no palco, ora nos bastidores. Ali, um jornal do dia, dobrado, é jogado sobre eles. Ambos começam um disputa - por si só divertida - para ver quem o lê primeiro. Percebe-se que procuram uma notícia específica. Finalmente um deles acha, rasga a página, e ambos olham orgulhosos para ela. O outro rasga metade da página, joga fora, sem tirar os olhos da outra metade, onde supostamente está o texto que interessa, evidentemente sobre eles. Outro tanto é rasgado, mais outro. Ao fim, eles têm um micropedaço de jornal entre os dedos e, ainda assim, lêem orgulhosos, colam na parede, tiram fotos.Além de explorar fragilidades humanas, Art of Dying diverte ainda com gags rápidas e ótimas, como na cena dos militares que vêem a tropa passar. Podemos escutar o som de centenas de passos tocando o solo. Para ver melhor, um deles lança mão de um suposto binóculo e, nesse momento, o som sobe de uma forma assustadora, tanto para o público quanto para eles. Binóculo de palhaço aproxima também o som.Mas além do nonsense e do exagero esses dois palhaços exploram ainda o lirismo e a tristeza. Um deles recebe o resultado de um exame, acompanhado de uma chapa do pulmão cheia de enormes bolas pretas. É quando a morte entra em cena, tratada com a gravidade de palhaço. Art of Dying é um espetáculo que valoriza essa arte milenar, por vezes maltratada até por aqueles que a levam à cena. A repórter viajou a convite da organização do festival

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