PEÇAS DE ROSSINI APAIXONADO

Avassaladora e fulminante, a paixão capturou Rossini duplamente, corpo e alma. De um lado, o esplendor do timbre de contralto, flexibilidade da voz e a irresistível veia cômica (bufa); de outro, a bela figura de mulher. A contralto Marietta Marcolini já tinha carreira consolidada; ele começava a vertiginosa conquista dos palcos europeus. La Marcolini simplesmente abandonou o ilustre Lucien Bonaparte (segundo Stendhal, na célebre biografia de Rossini) para tornar-se amante do compositor. Compensou, pois Rossini lhe deu o maior papel de sua vida, a Isabella de L'Italiana in Algeri. Quatro anos de sonho, entre 1811 e 1814, em que ela foi sua musa amorosa e artística. O compositor escreveu árias sob medida para sua amada e acabou formatando o gênero cômico que o tornou senhor do mundo lírico nas primeiras décadas do século 19, invejado até por Beethoven.

O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2013 | 02h13

Ao todo, cinco formidáveis e inesperados papéis centrais para uma contralto: Ernestina em L'Equivoco Stravagante (Bolonha, 1811), o papel-título em Ciro in Babilonia (Ferrara, 1812), Clarice em La Pietra del Paragone (Milão, 1812), Isabella em L'Italiana in Algeri (Veneza, 1813) e de novo o papel-título em Sigismondo (Veneza, 1814). Seis anos depois, em 1820, Rossini curtia a glória e Marcolini submergia (pouco se sabe do restante de sua vida), enquanto Rossini compunha ópera como pãozinho francês de padaria (foram mais de 20 em uma década). E com estrondosos sucessos.

O interessantíssimo CD Arias para Marietta Marcolini - A Primeira Musa de Rossini, da contralto sueca Ann Hallenberg, acompanhada pela norueguesa Orquestra Stavangen, regida por Fabio Biondi, joga luzes não só sobre o bem conhecido Rossini de L'Equivoco Stravagante, Ciro in Babilonia e L'Italiana in Algeri. Foca o mesmo período, entre 1810 e 1815, porém dá mais espaço para compositores seus contemporâneos, hoje esquecidos, promovendo até quatro primeiras gravações mundiais de árias de Johann Simon Mayr, Joseph Weigl, Ferdinand Paer e Carlo Coccia.

Naquele momento de transição, havia lugar, por exemplo, para instrumentos "obbligato", isto é, instrumentos solistas que dialogam com a cantora. Há vários exemplos nesta gravação. A flauta na inicial Sol di Morte Nero Velo da ópera Il sacrifício d'Ifigenia, de Mayr, uma première mundial; a trompa conversando deliciosamente com Hallenberg em outra première, a ótima cena de L'Eroismo in Amore, de Paer; mesmo a sensacional Per Lui che Adoro, de L'Italiana in Algeri, é feita aqui na versão original, com violoncelo obbligato. São trechos em que voz e instrumento estão em igualdade de destaque. Além destes, o melhor do CD pode estar ainda na cena mais longa, T'abbraccio, ti Stringo, de Ciro di Babilonia, da qual participam outros sete cantores (duas sopranos, uma mezzo, dois tenores e dois barítonos).

Ann Hallenberg não chega a ser sensacional (falta-lhe potência nos graves e os agudos são meio estridentes às vezes), mas é mais do que correta; consegue levar-nos a imaginar com entusiasmo como seria Marietta Marcolini no palco, com Rossini no camarote de olhos postos nela. A orquestra norueguesa não compromete, mas o sucesso geral da empreitada deve ser creditado ao regente Fabio Biondi, refinado especialista em música barroca.

Crítica: João Marcos Coelho

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