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Peça 'Uma Vida Boa' faz crítica ao preconceito sexual

Espetáculo é inspirado em história de americana vivida no cinema por Hillary Swank

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 21h15

Para viver o transexual B. no teatro, a atriz Amanda Vides Veras teve de sufocar a própria vaidade: cortou bem curtinhos e tingiu de castanho escuro os cabelos platinados, caprichou nas aulas de pilates com ginástica funcional para ganhar massa muscular, a fim de dar ao corpo um aspecto mais masculino, parou de tirar as sobrancelhas e deu adeus à manicure. 

Mas o processo de transformação física foi o de menos. “É o mais fácil, qualquer um pode fazer. O que fez a diferença foi o tempo que dediquei à pesquisa desse universo, para entender a cabeça de um transexual. Fiz amigos trans nesse processo, li livros, vi documentário”, conta Amanda, idealizadora da peça Uma Vida Boa, que estreou ontem no teatro do Oi Futuro Flamengo, no Rio. 

Estimulada pelo amigo Pablo Sanábio (ator e produtor), foi ela quem chamou o autor, Rafael Primot, e o diretor, Diogo Liberano, para contar a história de Brandon Teena – levada ao cinema em Meninos Não Choram, de 1999, o filme que deu o primeiro Oscar à atriz Hillary Swank. Hillary é da mesma cidade de Brandon, a provinciana Lincoln, no estado de Nebraska, no miolo dos Estados Unidos.

Brandon Teena nasceu Teena Renae Brandon, uma menina que desde a infância sofreu preconceito por não se identificar com seu gênero – a começar pelo de sua mãe. Mais crescida, Teena ia vestida de menino para o colégio, se interessava por garotas, escondia os seios com uma tala. 

Aos 20 anos, decidiu deixar Lincoln em busca de independência e felicidade. Fixou-se numa cidade próxima, já se apresentando como um rapaz de nome Brandon. Usava camiseta, jeans e cueca; dentro dela, uma meia enrolada, num formato de pênis.

Romântico e atencioso nos relacionamentos amorosos, apaixonou-se por Lana Tisdel, uma menina de 19 anos e vida igualmente tediosa com quem começou a namorar. E passou a conviver com John Lotter, um ex-presidiário, e outros moradores desajustados de uma cidade de forte marca religiosa, sem grandes atrativos e perspectivas para a juventude. 

Poucos meses depois, ao serem descobertos seus genitais, Brandon acabou estuprado e assassinado por Lotter e um amigo. Numa noite de réveillon, depois de atirar contra ele, ainda o esfaquearam – para se certificar de que não sobreviveria. Foi um dos crimes de ódio mais ruidosos dos EUA.

Na peça, Primot usou só as iniciais e os três personagens centrais dessa tragédia – B., L. e J. “Esta ideia partiu do Diogo”, lembra. “Queríamos tornar a história o mais universal possível. Depois do texto pronto nos deparamos não com um caso que aconteceu no interior dos EUA, mas com uma história de alguém que mente, se esconde, se transforma para fugir do preconceito e para encontrar sua verdadeira identidade e é punido por isto.”

“Apavorado” com a incumbência de criar o espetáculo a partir de um fato real e já conhecido, e não da própria vivência, Primot quis se distanciar do filme e recontar a trajetória do menino aprisionado no corpo de menina sob novo olhar. O título, irônico, saiu do apelido autoatribuído do estado de Nebraska – ali é onde se vive uma boa vida. 

“É uma peça sobre ser quem se é. Uma história facílima de se tornar simplória, mas que é tudo, menos isso”, conta Liberano. “Nosso esforço foi o de criar um espetáculo sobre a inviabilidade de se esconder.” 

Jovem, amiga entre si e com múltiplos talentos, a equipe se envolveu em todas as etapas do desenvolvimento do trabalho. Julianne Trevisol faz L., que, em vez de se voltar contra o namorado que era menina, o acolhe. “É a única que tem a sensibilidade de tentar entendê-lo. Não quisemos fazer um draminha como o filme, porque se for assim, melhor ver o filme”.

O confronto entre L. e B. e o subsequente ataque de J. (Daniel Braga) são os momentos de maior potência emocional. “Eu só quero entender que tipo de coisa você é”, diz a moça, sem dosar as palavras. “Eu tenho um defeito no corpo. Só queria viver sem me sentir pressionado e coagido o tempo todo”, diz ele, que tenta explicar seu transtorno de identidade sexual, alegando ser hermafrodita. “Não procuramos entender o porquê de isso ter acontecido. Aconteceu. O ser humano independe de explicação”, acredita o diretor.

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