Peça tem vários momentos de karaokê

Acompanhado de seis músicos, elenco, homogêneo, canta os principais hits de sua carreira

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Quando largou o Ibirapuera para viver à beira-mar, Tiago teve muito medo. "Fiquei apavorado de o João (diretor) me pedir para imitar Tim. Foi um alívio quando ele falou que não era isso", confessa o rapaz, que muda de voz durante a peça: tem uma para o Tim garoto, outra para ele cantando, outra para quando desfia seus aforismos famosos - "não bebo, não fumo, não cheiro, só minto um pouco". "Hoje, meu maior medo é não me divertir. Se não me emocionar, o público não vem comigo."

Com todas as letras frescas na cabeça - os hits tocam nas rádios, estão em incontáveis coletâneas e ainda nas escolhas dos DJs -, as plateias vêm se entregando sem reservas. De Vale Tudo ao bis, com Descobridor dos Sete Mares, Você e Eu e Não Quero Dinheiro, são vários os momentos de karaokê. Fãs ou não acompanham tanto as "mela cueca" (Você, Azul da Cor do Mar, Primavera, Um Dia de Domingo) quanto as "esquenta suvaco" (Do Leme ao Pontal, Sossego, Chocolate, Acenda o Farol).

Para além da imagem do "síndico" cantado pelos amigos, do sujeito que se atrasava ou faltava aos shows, reclamava do som (fez isso até o último), o Tim solitário é digno de compaixão. Sua irresponsabilidade é risível, suas tiradas são de lascar ("por favor, me vê duas prostitutas e uma pizza", pede ao telefone).

Narrativa. A opção por colocar na boca de Tim, dos parceiros de juventude, como Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Jorge Ben, da mulher e do amigo Nelson Motta falas que pontuam o passar do tempo - e o avançar da balança, dos 60 quilos do garoto de 12 anos de 1954 rumo à obesidade mórbida - se revela desde os primeiros minutos, ao subir das cortinas feitas de LPs.

Tim surge no palco em seu último show, no Teatro Municipal de Niterói, sobre o qual seria velado pela família e centenas de admiradores uma semana depois, passa mal, e vêm os dez atores lhe esclarecer que ele não está morrendo: aquele é um musical sobre sua vida.

Ao longo de quase três horas (quem não checar o relógio não perceberá de jeito algum), eles falam sobre a infância na numerosa família, a estada nos Estados Unidos, os anos de dureza, a indigesta baixa gastronomia, os termos sem sentido que cunhou, as idas e vindas com Janete, a mulher que mais amou, os dias e noites "doidão". Algumas canções ajudam na narrativa, como Sossego, do fim dos anos 70, e as românticas.

O uso inconsequente de álcool e de drogas é suavizado pelo diretor de forma inteligente. Até o deplorável "triatlo" que inventou - maconha, cocaína e uísque - fica engraçado. "Tinha tudo isso, mas era uma pessoa tão carismática! Fui backing vocal dele e, quando falava seus palavrões para os músicos, dizia: "Me desculpem, meninas". E, na minha época, ele compareceu a todos os shows", diverte-se Lilian Waleska, uma Janete deliciosa.

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