José de Holanda/Divulgação
José de Holanda/Divulgação

Peça teatral se inspira em roteiro inédito do diretor de cinema Federico Fellini

Marcelo Rubens Paiva adaptou texto que começou a ser filmado nos anos 60, mas não foi concluído

Flavia Guerra - O Estado de S.Paulo,

07 de maio de 2012 | 10h21

“A única preocupação permitida ao homem é de não se preocupar” , diz a aeromoça ao violoncelista Giuseppe Mastorna em cena da peça Il Viaggio. E tudo que o tal violoncelista faz em cena, e na vida, é burlar seu próprio direito, preocupando-se quase à exaustão com seu destino.

Destino esse que já começa desviado na primeira cena, quando o avião que o levava para um concerto em Firenze é forçado a fazer um pouso de emergência em uma cidade desconhecida. Pode ser uma cidade real, pode ser um sonho, pode ser a morte. E assim começa a viagem de Mastorna por esse universo de sonho e pesadelo, em que vida e morte confundem as certezas dele, que queria ser um grande compositor, mas tornou-se cidadão comum.

Livre adaptação do roteiro inédito de Federico Fellini, Il Viaggio di G. Mastorna, concebido por Helena Cerello e dirigido por Pedro Granato, o espetáculo estreou sábado no Sesc Bom Retiro em plena Virada Cultural. Em clima onírico, transporta a plateia ao universo felliniano. “A referência a Fellini é claríssima. Fomos fieis à essência do roteiro, que ele começou a filmar nos anos 60 com Marcello Mastroianni, mas nunca concluiu”, explica Marcelo Rubens Paiva.

Convidado pela atriz e produtora Helena Cerello a adaptar o texto para o teatro, Rubens Paiva conta que, apesar de ter incluído várias cenas, situações e diálogos, manteve a estrutura principal proposta pelo diretor italiano. “Priorizamos a jornada do músico que desejava ser grande compositor, e se distanciou desse ideal com o passar dos anos.”

Mastorna transformou-se num sujeito comum. Ou quase. Em sua vontade de ser ‘normal’, o músico se torna ridículo. E frustrado. Pois ao realizar sua viagem interna, descobre memórias que o fazem rever a vida e questionar se o universo caótico em que se encontra é a tão almejada vida eterna.

Para criar o universo de sonhos, pesadelos e de comicidade - humor nonsense, e circense, bem ao gosto de Fellini-, o diretor Granato e equipe optaram por soluções criativas. O desafio de levar ao palco a história inicialmente pensada para o cinema fez com que elementos cênicos como um avião vire portaria de um hotel, uma cama, uma casa... “Não tivemos de abrir mão das ideias do texto para dar a ele uma linguagem teatral. Assumimos que o avião se desmembra. A partir desse cenário, vão se construindo os espaços citados no roteiro”, explica Granato. “Do desastre em diante, tudo se cria para aguçar a imaginação.”

Imaginação foi o que Rubens Paiva e Helena tiveram ao trabalhar o texto. “Há pouca indicação de cenas no roteiro. Interessante é observar que as explicações são poucas e muito frouxas. Talvez por isso ele nunca tenha filmado. Isso torna o processo mais complexo, mas deixa livre para criar também”, comenta o dramaturgo.

Vale lembrar que o texto original foi traduzido por Helena, que descobriu a história na Itália. Isso porque Fellini transformou o roteiro em um livro. “Justamente por ter sido pensado para o cinema, tinha muitos diálogos e até story board. Já tínhamos escrito a peça quando descobrimos uma carta de Fellini ao produtor Dino de Laurentiis, com indicações de filmagem. Isso mudou nossa concepção da história. Então, frases dessa carta foram incluídas na peça”, conta.

Além das soluções cênicas, de frases e diálogos, Granato, Helena e Rubens Paiva deram à peça um caráter político. “Há cenas inteiramente novas. Mas destaco esses detalhes, como o discurso do papa, o autoritarismo...” .

Destaque também para o elenco acertado. Esio Magalhães (Mastorna), Bete Dorgam, Paula Flaiban, Paulo Federal, Ed Moraes encarnam as figuras fellinianas com verdade e graça. São esses clowns, ora engraçados, ora líricos, e outras vezes melancólicos, que de fato conduzem Mastorna ao seu destino final. 

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