João Caldas/Divulgação
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Peça sobre Rothko evidencia talento de Bruno Fagundes

Espetáculo tenta flagrar as grandezas e contradições na relação de pintor com assistente

O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h06

Mark Rothko é um dos reinventores da pintura. Sob o risco da obviedade, vale repetir que em toda atividade criativa sempre acontece o instante do passo além do que já foi feito, e nessa transformação surgem figuras com fúria e persistência. Van Gogh dizia preferir ganhar 150 francos por mês como pintor do que 1.500 em outra atividade. Para tanto é preciso, ele mesmo admitia "a paciência de um boi", autodefinição atribuída a Gustave Doré, celebrizado entre outros motivos por sua ilustração de A Divina Comédia de Dante.

Nessa linha de combate em que provavelmente o exemplo maior do século 20 seja Pablo Picasso ao explodir a imagem realista e criar o Cubismo, nos anos 50 surgiu o Expressionismo Abstrato que privilegia a espontaneidade, o ímpeto do improviso. Rothko está entre eles e sua atuação causou impacto em importantes pintores brasileiro da atualidade como Sérgio Sister e Paulo Pasta. Sister vê em Rothko a encarnação de um dos momentos mais altos da pintura em sua grande autonomia relativa em relação aos outros objetos, às formas, aos temas. Mesmo em relação à geometria. Pois a cor, pulsante, extrapola os limites da tela.

Esses transgressores (Picasso, Rothko, Jackson Pollock dentre tantos) foram muitas vezes difíceis no trato direto quando não fracamente odiosos. Na peça Vermelho, o dramaturgo John Logan tenta flagrar as grandezas e contradições de Mark Rothko (1903-1970), interpretado por Antonio Fagundes, na relação com o assistente e também aspirante a pintor, desempenho de Bruno Fagundes.

A convivência entre os dois será a repetição psicanalítica de o filho matar simbolicamente o pai, o aluno superar o mestre; é também a evidência de que a arte mais luminosa pode surgir de almas sombrias, mistério para sempre fascinante. Rothko trata o auxiliar com uma prepotência doentia. O texto é frágil ao apenas alinhavar seus discursos originais, inteligentes, ou mal humorados sem as nuances de um solitário. Para que o espectador perceba, enfim, o enigma de vidas como, por exemplo, Caravaggio, gênio e também um assassino. Havia a possibilidade de Vermelho avançar algo mais, mesmo que por referência indireta, na biografia desse lituano judeu Markus Rothkovics que chegou à América escapando da pobreza e do antissemitismo. Suas relações familiares - Rothko casou-se duas vezes, era um bêbado de saúde frágil e acabou por se suicidar. A dramaturgia de John Logan quer apenas a apoplexia do artista. Perde-se a possibilidade da construção dramática aprofundada, os dados histórico-culturais em favor das frases de efeitos e a citação de nomes célebres da pintura, de Matisse, Dali a Rauschenberg e Warhol. Já que o autor julgou importante tantos nomes, pode-se estranhar a ausência de Barnett Newman próximo a Rothko inclusive nas origens (Newman era filho de poloneses).

A encenação tem o clima adequado à representação que Antonio Fagundes estratificou ao longo da carreira no palco e que teve momentos brilhantes. Um estilo baseado na super extroversão. Papéis ruidosos em que os arroubos, fúrias e protestos são expressos aos gritos e estardalhaço de gestos. Mas ele se preserva de aprofundamentos psicológicos. Fala alto, mas não se entrega. É um bloco de certezas até - em entrevista - sobre a inutilidade da crítica teatral. Rothko pelo menos é divertido quando brada "esses fdp da crítica". Não faz de conta que a ignora. Fagundes está na encruzilhada que o pintor apontava em colegas. A de serem previsíveis. Nessas circunstâncias, a novidade tateante, nervosa, mas simpática em um jovem profissional, está em Bruno Fagundes.

Em três cenas, quando enumera, apaixonado, os tipos de vermelho, narra penosamente a morte do pai e, finalmente, enfrenta a prepotência do patrão, Bruno mostra empenho sem cacoetes histriônicos. O conjunto da encenação de Jorge Takla, sobretudo pelo seu domínio do espaço e sentido plástico, vai além desse muito barulho e convence. Paul Gauguin, em uma carta de 1903, avisou que a solidão não pode ser indicada para todo mundo, "porque você precisa ser forte para aguentá-la". Vermelho mostra Rothko na crise final.

Crítica: Jefferson Del Rios

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