Peça se baseia em conto de Cortázar

Nada é exatamente aquilo que aparenta. Na literatura do argentino Julio Cortázar a lógica usual tem pouca valia para dar conta do que acontece. São eventos inexplicáveis, sobrenaturais. Uma inclinação que o filiou à tradição do realismo fantástico e que parece difícil de ser transposta para qualquer outro suporte que não seja o livro. É a essa dificuldade que Pronto para Mudar, espetáculo que abre temporada hoje, tenta se contrapor.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2011 | 00h00

Foi no conto Carta a uma Senhorita em Paris que Janaína Leite e Juliana Sanches - conhecidas por seu trabalho como atrizes do grupo XIX de Teatro - encontraram subsídio para sua primeira incursão como encenadoras. "Nosso grande desafio foi explodir o conto e tentar transformá-lo em material cênico", comenta Juliana.

Sem fugir à linguagem que se tornou marca do grupo XIX, as diretoras estreantes mantiveram-se devotas do processo de criação colaborativa e da interação com o público. É, aliás, por meio dessa relação com os espectadores que a peça "resolve" boa parte desse jogo fantástico instaurado pela obra de Cortázar.

Inexistente no conto, a personagem de uma corretora de imóveis (Priscila Jacomo) serve, nesta versão, para fazer a ponte entre palco e plateia. Tenta vender um apartamento sem revelar aos possíveis compradores algum dado trágico que ronda o lugar. "A participação do público no espetáculo tem uma dupla função: conseguir dar materialidade ao fantástico sem fechar a metáfora", aponta Janaína.

Em Carta a uma Senhorita em Paris, Cortázar nos revela a história de uma tradutora (interpretada por Michelle Gonçalves e Mimi Bonnenfant), atormentada por um estranho fenônemo: de tempos em tempos, ela vomita coelhinhos brancos.

Ao escrever para um amigo, dono do imóvel onde vive, a moça conta que tudo aconteceu subitamente, sem aviso. De início, conseguia lidar com a situação, já que era apenas um coelho por mês. "Não era tão terrível, uma vez que isso havia entrado no ciclo invariável, no método", diz. Mas tudo muda quando eles começam a se multiplicar, chegando a qualquer momento.

Num cenário formado por caixas de papelão, a protagonista relata sua agonia. Em pouco tempo, os coelhinhos já são dez e a obrigam a mudar sua rotina. Ela não mais trabalha ou dorme e sabe que precisa fazer algo para interromper tal ciclo.

PRONTO PARA MUDAR

Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1,000, tel. 3397-4002, metrô Vergueiro. 5ª a sáb., às 21 h; dom., às 20 h. R$ 20. Até 29/5.

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