Peça revê Hamlet sob a ótica de Lacan

Um estudo do psicanalista Jacques Lacan sobre o personagem Hamlet serviu de inspiração para o espetáculo Sujeito Barrado, espetáculo dirigido por Márcio Tadeu, que estréia nesta quinta-feira no Espaço Cênico Ademar Guerra, o "Porão" do CCSP, em São Paulo. "O título da montagem faz referência a um conceito lacaniano sobre a falta eterna do homem sempre correndo atrás do desejo", explica Tadeu, professor de artes cênicas da Universidade Estadual de Campinas, onde fundou o Grupo Benditos Malditos.E é uma investigação sobre o desejo o ponto de partida de Sujeito Barrado, 5º trabalho dessa companhia, que tem no currículo espetáculos ousados, como Werther, adaptação da novela Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, e Jovens Bárbaros de Hoje, de Arrabal, numa encenação aprovada pelo autor espanhol em sua visita ao Brasil, em 1997."Neste ensaio Lacan faz uma explanação empolgante sobre o desejo. É preciso lembrar que seus ensaios foram transcritos de palestras, ou seja, nascem na forma da linguagem oral. Ele brincava com as palavras de forma encantadora e devia ser uma figura muito carismática", observa Tadeu. Mas adverte também que utiliza o ensaio de Lacan "com muita liberdade". Em cena, estão o próprio Lacan, Hamlet e, claro, sua mãe, a rainha. Há ainda uma aparição do Fantasma do rei assassinado pela rainha e seu amante, tio de Hamlet.Com o perdão dos lacanianos pela simplificação, pode-se dizer que o psicanalista separa o desejo de Hamlet em dois: o inconsciente, pela mãe, e o consciente, pela noiva Ofélia. "Sua hesitação em vingar a morte do pai vem do fato de o seu rival, o tio, ter realizado o seu desejo inconsciente de matar o pai e casar com a mãe", resume Tadeu. "E Ofélia leva as bordoadas por conta desse desejo inconsciente."Mas, apesar dessas explicações, o diretor garante que o público não precisa ser inicidado em psicanálise para curtir o espetáculo, cuja linguagem lembra os happening dos anos 70 e tem momentos de bastante humor - sem gracinhas. Com a utilização de recursos cênicos como tabuletas, faixas e efeitos de iluminação e sonoplastia, o diretor promove uma espécie de "regressão" do personagem. Em cena, o público verá Hamlet criança ainda em harmonioso convívio com pai e mãe. Se explorado com talento, evidentemente um personagem como Hamlet propicia ainda muitas e ricas possibilidades de exploração cênica.

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