Peça reúne Ariclê, Autran e Caruso

A atriz Ariclê Perez botou as mãos na massa para realizar o antigo sonho de encarnar Denise, a protagonista do bulevar Les Enfants d´Edouard. Ela vai produzir o espetáculo, orçado em R$ 629 mil, aprovado pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, e com estréia prevista para janeiro de 2002, no Teatro Faap. Do mesmo autor de Pato com Laranja, Marc-Gilbert Sauvajon, Os Filhos de Eduardo coloca em cena 12 atores em meio a um cenário luxuoso, ambientado na década de 30."Ando com imensa saudade do cotidiano teatral", disse Ariclê, na entrevista que reuniu há poucos dias, a pedido do Estado, a atriz, o dramaturgo Marcos Caruso e o ator Paulo Autran, no apartamento do último. A trinca famosa está envolvida no projeto de Ariclê, mas não como se poderia a princípio imaginar. Caruso vai dirigir a peça e Paulo assinará a tradução do texto."Paulo é meu pai benévolo; ele me alertou para os riscos de se montar uma peça com elenco numeroso, mas ao mesmo tempo está me dando total apoio", sublinha a atriz, que ano passado foi dirigida por ele em monólogo que reunia poemas e trechos de peças conhecidas.Além de estar com saudade das lides do teatro, incluindo a possibilidade de realizar uma longa temporada e o prazer de ver em cena "atores que entram em saem, que abrem e fecham portas, sobem e descem escadas", Ariclê também enfatiza o desejo de interpretar finalmente uma personagem cômica no teatro."Fiz todas as doentinhas do teatro brasileiro", diz a atriz, com bom humor. "Nos anos 70, fui guerrilheira, torturada, morria em cena; em A Margem da Vida, chorei um ano inteiro, meio ano em São Paulo, meio no Rio", conta. Ela também ensaiou a personagem Leninha, de Abajur Lilás, na década de 70. Mas a peça foi censurada e nunca estreou. "Meu marido (Flavio Rangel, morto em 88) achava que eu me daria bem fazendo alta comédia, no sentido da leveza que ela possibilita, mas acabei experimentando o gênero primeiramente nas novelas", conta, referindo-se a Elizinha, de Anjo Mau, e Gilda, de Salsa & Merengue, ambas da TV Globo.Vida pregressa - Os Filhos de Eduardo retrata uma família francesa da classe média alta, na década de 30. Denise, "mulher de vanguarda, filha dos sufragistas", segundo Ariclê, e mãe de Walter, Marina e Bruno, atribui considerável respeito ao marido morto há longo tempo, pendurado no quadro da parede. Mas quando os dois filhos mais velhos resolvem casar, a personagem decide que é chegada a hora de revelar um grande segredo sobre sua vida pregressa.Esse segredo vai revelar que Denise sempre foi solteira, a despeito da imagem paterna que inventou para proteger os filhos. Cada um deles é filho de um homem diferente, com quem ela se relacionou."O que faz Denise fugir do casamento é que à época ele era uma verdadeira prisão", comenta Ariclê. Paulo completa: "Uma mulher divorciada em 30 era um verdadeiro escândalo!"Portanto, continua Ariclê, "ela não casa porque o casamento a atrapalharia na sua curiosidade e busca intelectual; mas por outro lado, constrói uma viuvez para proteger sua cria".A visão moderna de sociedade e família que a protagonista encarna fica palpável quando resolve reunir os três pais em torno dos respectivos filhos, todos sob o mesmo teto. "É muito bonito da parte dela, abrir a casa quando é chegada a hora, com as crianças suficientemente adultas para saber a respeito de seus verdadeiros pais; e Denise fica feliz de vê-los reunidos", diz Ariclê, que se interessa em montar o texto há pelo menos cinco anos, quando lhe indicaram a peça para leitura. Os Filhos de Eduardo foi montado no Brasil nos anos 50, com direção de Ruggero Jacobbi e elenco composto por nada menos que Ziembinski e Cacilda Becker.Nem aquém nem além - Paulo Autran se dá muito bem com o gênero bulevar, obrigado. Ele nem pestaneja para analisar o tom que se deve empregar nesse tipo de teatro - pautado pelos qüiproquós e situações inusitadas -, aliás bem utilizado no sucesso Pato com Laranja.Categórico, afirma ter o bulevar características muito específicas. "O ator não pode chanchar, senão perde a graça; ele tem de caminhar sobre uma laminazinha e não cair nem na chanchada nem no drama", explica. "Infelizmente a chancha é uma tendência do teatro brasileiro, mas que não funciona neste tipo de comédia."Autran também apregoa: "O bulevar é uma brincadeira, não pede o aprofundamento de aspectos dramáticos da personagem; o ator precisa saber trabalhar com superficialidade e inteligência." E o elenco? Ariclê e Paulo passam a bola para Caruso: "Estamos estudando com muito cuidado a escalação para um gênero que só aparentemente parece ser fácil; se a gente erra na escolha do elenco, destrói todo o time", ressalva.Marcos Caruso conta que é a primeira vez que dirige comédia. Entre suas direções estão SOS Brasil e Estórias Roubadas. Lembrete: Caruso é co-autor, com Jandira Martini, da famosa Trair e Coçar É só Começar.Sobre as filigranas da interpretação do bulevar, Caruso concorda com Paulo: "É muito difícil fazer bulevar, porque tem que ter um estilo; como disse o Paulo, não dá para ficar nem além nem aquém na representação. Você tem que ser exatamente fiel ao que o autor pede", sublinha. "Os personagens são horizontais, não verticalizados; não há espaço para psicologismos, pois o que importa são os personagens na situação."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.