Peça recupera texto de Giordano Bruno

O que têm em comum uma comunidade pobrenapolitana do ocaso do Renascimento e o Brasil do século 21? Para o diretor Amir Haddad, tudo e, por isso, ele estréia amanhã, no Teatro Carlos Gomes, O Castiçal, único texto de ficção de Giordano Bruno, filósofo e padre queimado pela Inquisição por não aceitar as regras impostas pela Igreja Católica. "Há cinco anos sonho com esse espetáculo, necessáriopor ser um clássico, pela identidade que existe entre as culturas brasileira e italiana e por revelar as contradições das elites", diz Amir. "Na época, a Igreja condenou o texto. Isso me atraiu porque sua atualidade já dura 400 anos."O Castiçal conta as tramóias e golpes que moradoresde um bairro popular (quase uma favela, como as nossas) armam emcima de seus vizinhos burgueses para sobreviver. O tom é daCommedia dell´Arte, sem a máscara ou os personagenstradicionais. Na tradução do poeta Jorge Wanderley, adaptada porAlessandra Vanucci, a fala da época se mistura à carioca de hoje, mas o espetáculo é de época. "Como há muitos anos, minhaintenção é recuperar esse teatro católico e mediterrâneo, quefoi subestimado por causa da arte protestante e anglo-saxônica", explica ele. "Apesar de transgredirem o tempo todo e usaremuma linguagem popular, quase obscena, os personagens sãoimpregnados de religiosidade, como o povo brasileiro."À frente de um elenco de 30 atores e cinco músicos,tocando ao vivo a trilha sonora de Ricardo Pavão, Haddad faz opapel-título, um homossexual assumido, segundo ele, o primeiroda dramaturgia mundial e, por isso mesmo, criticado desde então.O diretor se apaixonou por O Castiçal exatamente pelacapacidade de mexer com ética e moralidade. "O espetáculocritica o preconceito da elite. O personagem do Nelson Portela,por exemplo, é um professor que só fala em latim, mas sofre otempo todo com sua empáfia", adianta ele. "Os outrospersonagens tratam suas tramóias como obras de arte. Váriasvezes no texto, quando eles contam seus golpes, os comparam comgrandes cenas de teatro."A montagem é o último item do contrato com a prefeiturado Rio que deu a Haddad a administração do Carlos Gomes, pordois anos, e lhe forneceu R$ 150 mil para O Castiçal,insuficientes para a superprodução de época, mas necessáriospara provar que é possível teatro sem incentivo de renúnciafiscal. "Esse modelo funcionou, mas precisa ser reavaliadoporque as produções encareceram e deixaram de buscar o público.Como os espetáculos já estréiam pagos, as temporadas sãopequenas, só o suficiente para justificar o investimento e nãopara serem vistas por muita gente", comenta Haddad, que jánegocia com o gestor dos teatros da rede pública, MiguelFalabella, outro tipo de parceria. "O Carlos Gomes é muitosolicitado e tive ingerências que me impediram de realizar meuprojeto de criar uma companhia estável de clássicos e uma escolade teatro. Minha proposta é ir para o Dulcina, onde tereimelhores condições."Enquanto ensaia e estréia O Castiçal, Amir Haddadfaz a comissão de frente e a última ala da escola de samba Portoda Pedra, que tem como enredo "Os Donos da Rua, um JeitinhoBrasileiro de Ser". Nada mais adequado para um dos pioneiros doteatro de rua no País, esse mineiro criado em São Paulo, que há35 anos conheceu a cultura carioca na quadra da escola de sambaImpério Serrano. "Fiquei a noite inteira esperando o ensaiocomeçar, vi as pessoas cantando e dançando e saí de lá achandoque carioca era mesmo folgado, pois em vez de trabalhar passavaa noite inteira se divertindo", conta ele. "Só depois entendique a diversão era o ensaio, não tinha de ser sisudo como eu eranaquela época."Hoje, acredita que o desfile das escolas de samba é umadas mais eficazes e interessantes formas de teatro, pois contauma história em forma de cortejo, com altas doses deimprovisação. "Isso escapa do controle do diretor, mas éfantástico, pois minha vontade era trazer todo mundo para meusespetáculos", filosofa. "Essa é a arte maior do brasileiro e,mesmo com a censura que sofre, consegue mobilizar multidões.Imagine se fosse uma arte livre."

Agencia Estado,

12 de fevereiro de 2003 | 16h57

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