João Caldas/Divulgação
João Caldas/Divulgação

Peça 'Processo de Giordano Bruno': A liberdade no círculo de fogo

No espetáculo, interpretação de Celso Frateschi transmite o que texto pretende ressaltar

O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h11

A autoridade cênica de Celso Frateschi faz toda a diferença em um espetáculo que poderia ser apenas a reiteração das prepotências da Igreja Católica Apostólica Romana. Os interesses políticos do Estado do Vaticano sob o manto religioso deram origem às Cruzadas, imensas e cruentas expedições militares e, a seguir, à Inquisição. Em nome da fé foram praticadas torturas (falsamente abrandadas sob o nome de "tormentos") e execuções públicas dos condenados nas fogueiras.

Entre os brasileiros alcançados pelas "visitações do Santo Ofício" estão o dramaturgo Antonio José da Silva e duas mulheres, Ana Rodrigues e Branca Dias, que inspirou a peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes. Período sinistro da História Universal e da história localizada dessa Igreja em estreita ligação com os poderes régios da Europa medieval.

Seria fastidioso relembrar detalhes desses rituais e o texto de Mário Moretti quase resvala só na denúncia, o que já rendeu peças melhores, como Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, e estudos pormenorizados entre os quais figura Círculo de Fogo, de Alberto Dines. O que dá mais interesse ao texto é a eloquência do filósofo Giordano Bruno na decisão de in extremis entregar-se à morte em um gesto de coragem intelectual em meio ao cansaço físico e psicológico.

Em Processo de Giordano Bruno, a interpretação de Celso Frateschi transmite o que Moretti pretende ressaltar. A base do confronto é a insistência de Giordano em proclamar que é um filósofo, não um teólogo e, portanto, tem o direito à dúvida investigativa, de incorporar aos seus escritos e palestras os novos conhecimentos científicos, sobretudo os da astronomia que colocam em xeque o dogma da Terra como centro de um universo criado por Deus. Perante seus inquisidores e face a face com seu delator, Giordano Bruno mantém uma curiosa ironia e um arriscado senso de humor. Homem informado parece fazer questão de ignorar que antes dele, pensadores com o checo Jan Huss (1369-1415) foram sacrificados por suas convicções dadas por heréticas (Galileu Galilei escapou por ser ardiloso e com aliados nos locais certos).

Há um dado pouco desenvolvido no enredo, que é a relação do filósofo com o nobre veneziano Giovanni Mocenigo, que o denunciou à Inquisição. Mocenigo foi uma figura complexa, com uma estranha e violenta biografia, sendo, pois, mais que o vilão raso da peça. O mesmo se passa com o cardeal Bellarmino atuante nos julgamentos de Galileu e Giordano. Segundo biógrafos, era afável e caridoso embora polemista contundente. Teria recusado sua escolha para papa e acabou canonizado por Pio X.

Divergências extremas são teatralmente ricas se bem exploradas: a relação de Thomas Morus com Henrique VIII rendeu uma peça de Robert Bolt (A Man for All Seasons) filmada com o ator Paul Scofield (1966). No Brasil, teve o título O Homem Que Não Vendeu Sua Alma.

O enredo de Processo de Giordano Bruno sugere montagem contida e Rubens Rusche é um diretor dessa linha e a cenografia de Sylvia Moreira expressa na medida a sobriedade do ambiente e da situação. Provavelmente, se ganharia em efeito dramático e de verossimilhança com menos frieza gestual nos ares mefistofélicos dos inquisidores.

O desempenho de Frateschi, um dos melhores atores de sua geração, alterna tensão e descontração, o que confere sempre ângulos surpreendentes ao papel. O seu Giordano é palpável e compreensível em suas variações de temperamento, sem o peso interpretativo e o esforço vocal excessivo de O Grande Inquisidor, de Dostoievski, trabalho anterior também com direção de Rusche.

Há uma grandeza natural, quase rústica, nesse memorial pelas liberdades. 400 anos depois do que lhe aconteceu, Giordano Bruno é estátua de bronze na praça onde morreu no centro de Roma. Dali se pode ir a pé até o Vaticano. Distância pequena para as ainda largas divergências entre a liberdade do saber em busca de novos horizontes e fundamentações religiosas intolerantes e interesses destituídos de espiritualidade.

Crítica: Jefferson Del Rios

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