JF Diorio/Estadão
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Peça ‘Operação Trem-Bala’ é uma metáfora das famílias parasitas que assombram o País

O diretor Naum Alves de Souza volta à cena renovado como artista

Jefferson Del Rios - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2013 | 20h36

O espetáculo Operação Trem-Bala é um circo de horrores e uma história engraçadíssima. Também é uma boa notícia. O dramaturgo, diretor e cenógrafo Naum Alves de Souza, ao completar 40 anos de carreira e ao fim de um longo silêncio, volta à cena renovado como artista. Criador de um teatro de melancólicas evocações adolescentes, e com um olhar cético sobre a velhice desde o primeiro grande sucesso, No Natal a Gente Vem te Buscar (1979), ele chega agora à sua síntese, ou nova fase, usando com maestria o humor grotesco que exige solidez crítica e pleno domínio da escrita.

Naum desloca-se da visão anterior da vida, poética e algo depressiva, e parte para o ataque. Por um caminho bem pessoal, chega perto do espanhol Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), formulador do “teatro esperpento” (o que significa feio, bruto), e assim resumido por um de seus personagens: “O sentido trágico da vida espanhola só pode ser representado com uma estética sistematicamente deformada”. Em uma série de peças chamadas Comédias Bárbaras, Valle-Inclán dirige sua atenção ao primitivismo das relações humanas, à pobreza e às injustiças sociais.

Naum, por sua vez, somou três temas fortes: a miséria física da velhice, a impiedade dos parentes, sobretudo os mais jovens, e a loucura do poder. Quase todas as personagens de Operação Trem-Bala têm mais de 100 anos, não conseguem morrer, estão exaustas em cadeiras de roda e andadores, mas continuam corruptas e más. O enredo mistura a fixação pelo mando e seus privilégios com disputas por herança entre mulheres e filhos. Poderia ser algo sinistro, mas Naum usa o exagero de uma maneira veloz que resulta engraçada, embora tudo rigorosamente verdadeiro.

É possível reconhecer traços de ditadores latino-americanos dos romances O Senhor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, ou O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez. O espectador saberá achar equivalências brasileiras. Valle-Inclán também falou deles em Tirano Banderas, ambientado em um hipotético lugar da América Latina. Esses déspotas ensandecidos, seus familiares e agregados são horríveis e simultaneamente caricatos como vilões de histórias em quadrinhos. Exalam voracidade. Naum, porém, não se esqueceu do ângulo íntimo da bufonaria. Há ingratidão filial, frieza materna e os acertos de contas conjugais. Não fica pedra sobre pedra. O absurdo cômico, brilhante no texto e irresistível na representação, alivia o pesadelo entre as paredes de uma mansão em ruínas, simbolizando países e modos de governar (as referências locais são identificáveis).

A contribuição adicional da peça aos temas nela tratados é o distanciamento do realismo emotivo sem novidades e do panfletarismo ideológico óbvio. Naum arranca a família da moldura convencional e transforma os donos da política e das negociatas em espantalhos emblemáticos. Sua capacidade de desaforo inteligente e de protesto estilizado tem afinidade com o escritor, cartunista e ator argentino, radicado na França, Copi (Raul Damonte – 1939-1987) autor de Eva Perón (em que Eva é prostituta e Perón gângster) e do misterioso e extravagante O Homossexual Ou A Dificuldade em Exprimir-se. Em termos visuais, a encenação lembra desenhos de Roland Topor, do mesmo grupo de Copi em Paris (o chamado Teatro Pânico, que inclui Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky). As citações, talvez exageradas, não tiram a originalidade de Naum. São boas coincidências no universo latino de tiranias decadentes e, mesmo assim, duradouras.

Diretor da própria obra, Naum reúne um elenco sensacional, que se desdobra em múltiplos papéis. Parece um aglomerado, uma quadrilha (até o Diabo entra em cena), quando são espantosamente só quatro intérpretes no máximo da criatividade: Ana Andreatta, Fábio Espósito, Marco Antonio Pâmio e Mila Ribeiro. Raramente poucos fazem tanto. Operação Trem-Bala é metáfora melodramática ou tragicômica da terra em transe e suas famílias parasitas que assombram a nação.

OPERAÇÃO TREM-BALA

Instituto Cultural Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 97, 3255-8065. 6ª e sáb., 20 h; dom., 19 h. R$20. Até 29/9.

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