Peça olha a morte por meio da obra de Tolstoi

Premiada por versão de Herman Melville, Cácia Goulart adapta autor russo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2013 | 03h24

Tolstoi estava distante da literatura havia alguns anos quando criou A Morte de Ivan Ilitch. Saudoso do amigo, Turguêniev escrevera-lhe uma carta, na qual clamava por seu retorno ao ofício. A resposta foi essa breve e impressionante novela que conta a agonia e a morte de um juiz de São Petersburgo.

O que a atriz Cácia Goulart apresenta no Espaço Redimunho é uma versão teatral do livro. Quinze anos depois de sua primeira leitura do título, ela concebeu, em parceria com Edmilson Cordeiro, uma adaptação que contempla o mesmo mote e as mesmas personagens delineadas pelo escritor russo.

O procedimento lembra o caminho que empreendera em Bartleby. Na montagem de 2008, ela também vertia um título literário para o palco - o conto de Herman Melville - e vivia o protagonista. Em A Morte de Ivan Ilitch, contudo, a intérprete fez opções mais radicais. Encarrega-se da direção. Sozinha, encarna todos os papéis. "É um projeto muito autoral, daí esse acúmulo de funções e a solidão terrível com que as encaro", diz a intérprete, que conseguiu matizar, com cores muito pessoais, a fábula publicada em 1886.

Ter passado dois meses velando a mãe em seu leito de morte é uma dos dados que aproximaram Cácia do enredo de Tolstoi. Ali, viu-se defrontada com a finitude, com o luto, com a própria impossibilidade de experimentar o que é morrer. O espetáculo contamina-se disso e também daquilo que a intérprete chama de "paisagens internas".

Ao longo da encenação, ela convoca reminiscências de sua infância em Minas Gerais. Ouvem-se ao fundo as carpideiras e os cantos fúnebres. As palavras de escritores mineiros - Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa - imiscuem-se entre suas falas. "Essa se transformou também na minha história, na minha narrativa", comenta Cácia.

Depois de escrever os clássicos Guerra e Paz e Anna Karenina, Tolstoi conquistou fama, reconhecimento e dinheiro. Mas, atormentado por não encontrar um sentido em tudo isso, resolveu abdicar da antiga vida de conforto e tomar como exemplo a simplicidade dos camponeses. A concepção de A Morte de Ivan Ilitch traz ecos desse período: tanto o apego aos mais pobres quanto a ironia perante a ordem social vigente.

O personagem-título é um homem simplório. Iludido por seus sonhos de grandeza, entretido com a decoração da nova casa, com as promoções profissionais e os aumentos de salário. É só diante da iminência da morte que ele irá transformar-se. Mas essa tomada de consciência acontece tarde demais. E só torna sua agonia ainda mais penosa.

Depois de uma queda, o respeitado juiz é acometido por dores inexplicáveis. Os médicos não conseguem descobrir a origem da doença nem a sua cura. Ele encontrará consolo apenas no servo, o único que lhe devota cuidados de maneira desinteressada e está liberto da teia de hipocrisia que o circunda. Na mulher - ainda que o casamento tenha sido motivado por uma paixão inicial - descobrirá apenas alguém interessada nos bens a herdar e na pensão a receber. Entre aqueles que julgava amigos, estão não mais do que "concorrentes", preocupados em ocupar o lugar a ser deixado vago com a sua morte.

Na atual leitura teatral, saltos no tempo servem para embaralhar as situações descritas no romance. Outro artifício da encenação é unir os três ambientes em que se passa a ação. Ora o público se vê no quarto do doente, ora no velório, ora no tribunal.

Cortes judiciais aproximam-se imensamente de estruturas teatrais, com seus papéis a representar e seus desfechos previstos de antemão. A atriz enfatiza esse aspecto e se serve dele para trazer um rastro de humor ao tétrico enredo. Ao olhar para os estratagemas dos homens de toga, ironiza sua linguagem empolada e vazia. Ri da maneira como tergiversam sobre a verdade, evidencia a distância, quase intransponível, que parece existir entre a justiça e os ditames da burocracia judiciária.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.