Peça no Sesc Avenida Paulista discute realidade e ficção

Recentemente, a diretora carioca Christiane Jatahy trouxe à cidade uma ótima montagem teatral, Leitor por Horas, com texto do espanhol José Sanchis Sinisterra, que já tem cinco indicações aos prêmios Shell e Qualidade Brasil. A partir desta sexta, ela volta à cidade com um trabalho igualmente provocante, criado em processo colaborativo com os atores, um desses espetáculos que convidam o público a ser cúmplice, a completar sentidos: A Falta Que nos Move ou Todas as Histórias São Ficção, que estréia no Sesc da Avenida Paulista. Quando os espectadores entram no espaço em forma de semi-arena, os atores já estão lá, entretidos numa conversa aparentemente cotidiana. Informam que estão à espera de um outro ator, supostamente atrasado. Começa aí um jogo que o tempo todo vai misturar ficção e realidade, improviso e texto previamente escrito, enquanto os atores preparam - de verdade - um jantar. Eles cozinham em cena, abrem vinhos, bebem, conversam. Em muitos momentos, falam diretamente com o público. É um jogo. Nada de excepcional vai acontecer ali. Ou vai? Como na vida, ninguém sabe de antemão. "Não há uma história, mas personagens em situação. Mas o que se propõe não é a naturalidade ou naturalismo, é realismo", diz Christiane. Os atores se chamam pelos seus nomes e, em alguns momentos, falam diretamente para e com o público. "Mas quando acontece essa quebra de ilusão, os atores estão ali, sem querer enganar ninguém, propondo um jogo, o público entra nesse jogo e tudo volta a ser teatro, o teatral se restabelece", diz Christiane. "Desde que a gente consiga que tudo seja vivo, de verdade." O ponto de partida da construção da dramaturgia foram improvisos sobre histórias pessoais ou vivenciadas, de um grupo de atores convidados, mais amplo do que os cinco que estão em cena: Cristina Amadeo, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas, Pedro Brício e Ana Roberta Gualda. Mas a escritura cênica criada por Jatahy, a partir dessas improvisações, extrapolou o confessional e trouxe para a cena a memória coletiva de uma geração. "A peça fala da geração que nasceu pós-golpe, pós revolução comportamental. Seus pais foram ativistas, feministas, viveram mudanças radicais." Já os personagens cresceram num ambiente despolitizado. O passado, a História, eles resgatam de forma fragmentada, sob diferentes pontos de vista. E o espetáculo estimula os espectadores a buscar as suas conexões. Mas o passado, nessa peça, não aparece como flash-back. Ele é presente, importa a forma como age sobre aquele grupo de pessoas. "A peça não conta uma história, mas retrata esse encontro em que o passado se faz presente, ainda que de forma fragmentada, na ação de cada um deles. E é incrível o quanto a gente reproduz sistemas e padrões de relações dados pelos familiares, pela sociedade que vivemos." As histórias que serão ouvidas no palco são mistas: há as reais e as ficcionais. Difícil, ou impossível, será distinguir umas das outras. "O que é real? Uma lembrança de infância passa por muitos filtros. Na sala de ensaio tínhamos um código: nunca perguntar se a história era inventada ou vivida." O espetáculo é aberto a improvisações, porém dentro de texto muito bem estruturado. Há brechas, em momentos específicos, para o improviso, inclusive com a participação do público. Mas os tímidos não têm o que temer. "Confesso que tenho certa implicância com o chamado teatro interativo", diz Christiane. "Acho que o espectador tem direito a não trocar de lugar com o ator. O que a gente propõe é integração, que pode ser silenciosa." A Falta Que Nos Move ou Todas as Histórias São Ficção. 60 min. 16 anos. Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista - Espaço Décimo (50 lug.). Av. Paulista, 119, 3179-3700. 6.ªa dom., 21h. R$ 15. Até 17/12

Agencia Estado,

24 Novembro 2006 | 18h05

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