Peça mostra esperança transgressora de Michel Melamed

Em Regurgitofagia, seu espetáculo anterior, Michel Melamed incentivou a aplicação do manifesto antropofágico, lançado pelo escritor modernista Oswald de Andrade, ou seja, deglutir o que vem do exterior, imposto como cultura, e vomitar um conceito novo, mais adaptado à condição nacional. Artista sensível e inquieto, ele volta à carga com Dinheiro Grátis, que estréia sábado no Tucarena, na capital paulista, espaço ideal para o qual o espetáculo foi concebido, com o público rodeando o palco. "Se tudo tem seu preço e o homem é tratado como mercadoria, vamos tratar, então, o dinheiro como gente", anuncia Melamed, que aposta em uma certa radicalização em seu novo projeto - se, em Regurgitofagia, ele estava preso a cabos que emitiam choques elétricos a qualquer manifestação sonora da platéia, no monólogo Dinheiro Grátis, a arena é cercada por arame farpado (referência a campos de concentração) que é vencido a partir de convites oferecidos ao público - como um mestre-de-cerimônias, Melamed promove um leilão em que não apenas bens materiais são disputados, como também valores normalmente difíceis de avaliar como amor, lealdade. "Em qualquer relação humana, o dinheiro tem um valor supremo, o que está errado", comenta ele. "Quero mostrar que somos 6 bilhões de projetos que têm de ser afirmados e nunca esquecidos." O humor norteia a relação com o público que, como acontece em seus espetáculos, participa voluntariamente. E, mesmo com o espectador que prefere apenas apreciar, Melamed atinge seu objetivo, ou seja, consegue a compreensão da platéia do terrível sistema em que vivemos muitas vezes sem dar o devido valor: que a nossa relação com o mundo e com as pessoas não deve ser intermediada sempre por notas de papel. Ciente de que o teatro é o último reduto em que a transgressão é bem-vinda, Melamed promove uma integração de linguagens em cena, uma oxigenando a outra. "Como o rock foi nos anos 1960, meu teatro se baseia nessa transgressão presente na forma e no conteúdo." Regurgitofagia e Dinheiro Grátis são as duas primeiras partes daquela que Melamed chama de Trilogia Brasileira. A terceira, Homemúsica, chegará primeiro em livro, depois em um CD que vai unir música e poesia, para finalmente estrear no palco. "Quando estrear no teatro, vai ser um amálgama entre roteiro, fala e canções", diz Melamed, que, a julgar pelo sucesso de público, consegue discutir o mundo como um todo. Dinheiro Grátis. 70 min. 14 anos. Tucarena (280 lug.). Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, 3670-8453. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 40 e R$ 30 (6.ª). Até 30/7

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