Rodrigo Hypolitho/Divulgação
Rodrigo Hypolitho/Divulgação

Peça mergulha no universo de Rubião

Na estação, um homem espera por um trem. Mas não sabe ao certo para onde vai. Carrega um bilhete em branco, sem destino, sem horário. É esse o prólogo de O Amor e Outros Estranhos Rumores, encenação que o Grupo 3 de Teatro - um coletivo de mineiros radicados em São Paulo - criou calcado na obra de Murilo Rubião (1916-1991).

Maria Eugênia de Menezes BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

Embrenhando-se pelos contos do autor, a dramaturga Silvia Gomez, a quem coube o texto final do espetáculo, pinçou três histórias. Todas orbitam em torno de uma temática comum: o amor. Mas na ficção muriliana, vale ressalvar, o sentimento amoroso passa sempre ao largo do ideal romântico; resulta, inexoravelmente, na impossibilidade do encontro. Em relevo, despontam seres que desejam escapar (não se sabe ao certo de quê), mas não conseguem. Estão aprisionados, condenados a priori.

Somos apresentados ao trio: Pedro Inácio, que contabiliza os custos dos amores que teve; Godofredo, uma espécie de Barba Azul, que mata suas mulheres; e a um personagem sem nome próprio, tão anulado pela relação que se apresenta apenas como "marido de Bárbara".

A atriz Débora Falabella e a diretora Yara de Novaes, que se transferiram para a capital paulista há mais de cinco anos, bem que tentaram se descolar do rótulo de "criadoras mineiras". Com o grupo 3, montaram A Serpente, de Nelson Rodrigues, e O Continente Negro, drama realista do chileno Marco Antonio de La Parra. Com a estreia de O Amor e Outros Estranhos Rumores, porém, voltam os olhos para as origens.

"É, de certa maneira, um retorno para esse sentimento de confinamento que Belo Horizonte sugere. Uma geografia que nos força a olhar para dentro", diz a diretora, que convocou o ator Rodolfo Vaz, do grupo Galpão, para reforçar o elenco de conterrâneos. "Não sei se ser mineira resulta em uma determinada obra, mas certamente resulta em algo dentro de nós."

O encontro com a literatura de Rubião, conta Novaes, deu-se durante a Mostra de Arte Mineira Contemporânea, evento que ajudou a organizar no Sesc Pompeia, em 2008. "Na mostra a gente se voltou para a literatura de Minas e acabou topando com o Rubião. Foi então que ficou claro como a obra dele se presta a uma dramaturgia contemporânea."

Com tonalidades fantásticas e uma relação de tempo e espaço que escapa à tradição, o escritor engendra narrativas que exigem uma encenação fora da lógica de interpretação naturalista, bem ao gosto da cena atual.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.