Peça Marido Vai à Caça!: máquina de fazer rir

São nove atores no elenco de Marido Vai à Caça!, montagem do grupo Ornitorrinco, dirigida por Cacá Rosset, que estréia nesta sexta-feira para convidados no Tuca. Na noite de segunda-feira, eles se preparam para um ensaio aberto ao público. Com essa comédia de qüiproquós, de George Feydeu, que com Eugène Labiche foi um grande mestre na arte de colocar e, sobretudo, tirar personagens culpados de situações difíceis, quase impossíveis de sair, o grupo Ornitorrinco volta aos palcos depois de cinco anos.Antes que os atores comecem o necessário corre-corre pelo palco, minutos antes de as portas do teatro se abrirem ao público, alguém pergunta a Javert Monteiro, ator que faz o papel de um inspetor de polícia: "Por que o cachorro não vai mais atuar?" A pergunta se referia a Crost, um buldogue cuja imagem está em destaque no programa, no entanto, não aparece no espetáculo. Na peça, Chandel, o tal marido que vai à caça, vivido por Cacá Rosset, tem um cão chamado Maciste, que seria ´interpretado´ por um cachorro de verdade. "Pois é, mas mudamos de idéia, o cachorro estava cheio de exigências, uísque no camarim, toalhas brancas todos os dias", brinca Javert."Agora, falando sério, o Cacá Rosset, e todos nós, esperávamos que ele fosse o melhor ator em cena, finalmente um que fosse realmente bom, mas ele decepcionou", volta a brincar Javert. A verdade? Nos três primeiros ensaios abertos ao público, percebeu-se que o cachorro não provocara o efeito desejado, e por isso a idéia foi abandonada. Não foi a única, claro. Muitas coisas que se tentou encaixar durante os ensaios, muitas brincadeiras, acabaram saindo. "A gente colocava e depois tirava, porque via que não cabiam. É um espetáculo bem limpo", diz Christiane.Não deixa de ser curioso que um grupo consagrado escolha uma comédia ligeira para levar ao palco. Afinal, a moral explorada nesses boulevards - marido que trai normalmente, esposa fiel que hesita em trair, garçonnières, mulheres de ´vida fácil´ desviando jovens - já está bem ultrapassada. O que vale então? O exercício para o ator? E para o público? O prazer de compartilhar com o autor a chamada carpintaria teatral, ou seja, a construção do mecanismo que coloca os personagens em apuros? "Acho que é isso. O tema em si se tornou bem ingênuo. Tanto que havia crianças nos ensaios abertos que fizemos, e elas racharam o bico de rir", lembra Cacá Rosset. O que é extremamente interessante nesta peça é o humor matemático, mas que deriva em delírio cênico, em pesadelo cômico, tal a sucessão de situações."Pois não é que as crianças riem muito mesmo? Quando as portas se abrem para o público, logo chama atenção a presença delas na platéia. Carla dos Santos Veríssimo, por exemplo, levou seus dois filhos, Mariana, de 8 anos, e Rafael, de pouco mais de 1 ano. Aparecida Pereira Rios levou a filha Gabriela, de 4 anos. "Ela gosta muito de teatro", diz Aparecida. "Mas é a primeira peça de adulto que vê, não sei como vai se comportar." Bem, a julgar pela sua reação acompanhada de perto, o tempo todo, pelo Estado, Gabriela gostou muito.Num dado momento, o médico vivido por Ariel lembra do dia em morreu o papagaio de Leontina. O ator pega então um suposto papagaio na mão (invisível, não há qualquer objeto cênico para reproduzi-lo), faz gesto de quem amassa o bichinho (acompanhado do devido som) e depois o joga na platéia. Gabriela quase se abaixou, afastou a cabeça para não ser ´atingida´ pelo papagaio, mostrando que estava acompanhando, e muito bem, a trama. Mais para a frente, ela gargalhou quando o Cassagne segura num golpe rápido e ágil a criada Babete (Luciana Garcia) e faz dela uma espada para lutar contra uma Leontina furiosa, que tentava espetá-lo com uma bengala.Mais adiante, Leontina, para vingar o marido, decide ceder ao assédio do médico Mocicet e vai com ele a uma garçonnière. Como não poderia deixar de ser, o tal apartamento escuso fica no mesmo prédio onde o marido de Leontina, por sua vez, se encontra com sua amante. E, no encalço deles, está a polícia, chamada pelo marido da amante de Chandel. Deu para entender? Pois bem, Leontina terá de se esconder dos que, por sua vez, tentam se esconder em seu quarto. Sem tempo para isso, numa das cenas, joga sobre si mesma um lençol. "É um fantasma", falou rapidamente, entusiasmada, em voz alta, Gabriela, bem antes dessa associação ser feita por outro personagem em cena."Obviamente, não estamos pesquisando linguagem. Pelo contrário, estamos trabalhando com velhas linguagens, basta olhar nossa cenografia, feita em madeira, coisa antiga mesmo. Mas, paradoxalmente, pelo desuso, acaba surpreendendo, provocando efeito inverso."Trajetória1977: Criação do Teatro do Ornitorrinco por Cacá Rosset, Luiz Galizia e Maria Alice Vergueiro. Montagens de Os mais Fortes, com textos de Strindberg, e Teatro do Ornitorrinco Canta Brecht e Weill. Prêmios Molière, MEC-SNT e Governador do Estado1982: Mahagonny, de Brecht. Grupo faz suas primeiras viagens representando o País em festivais da Venezuela, Colômbia, México e NY1984: Montagem de O Belo Indiferente, de Jean Cocteau1985: Ubu/ Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, de Alfred Jarry. Mais de dois anos em cartaz, num total de 350 mil espectadores. Esse espetáculo ganhou 13 prêmios nacionais, entre eles Molière (direção), APCA (atriz, diretor, espetáculo) e Mambembe (diretor, figurinista). Ganhou ainda cinco premiações internacionais1987: Teledeum, do catalão Albert Boadella, montagem que, como as anteriores, levou o grupo a diversos festivais internacionais e ganhou o prêmio colombiano Celcit de melhor espetáculo estrangeiro1988: A Velha Dama Indigna, de Bertolt Brecht e Kurt Weill1989: O Doente Imaginário, de Molière, prêmio Inacen de melhor espetáculo e APCA de figurino1991: O grupo recebe convite para criar uma peça para o New York Shakespeare Festival e encena Sonho de Uma Noite de Verão. O espetáculo segue para o México, inaugura o Ópera de Arame em Curitiba e fica dois anos em cartaz em SP1992: Amor de Dom Perlimplim com Belisa em Seu Jardim, de García Lorca, premiado pela Associação de Críticos Teatrais de Miami como melhor espetáculo estrangeiro1994: A Comédia dos Erros ficou dois anos em cartaz e valeu ao ator Eduardo Silva os prêmios Molière, APCA e Mambembe1996: O Ornitorrinco reapresenta Ubu na comemoração dos dez anos dessa estréia1998: O Avarento, de Molière, estréia no Teatro Popular do Sesi2000: Scapino: mais um Molière e última montagem antes da primeira ´pausa´ na trajetória da cia. Em três décadas, 37 prêmios nacionais e internacionais O Marido Vai à Caça!. 12 anos. 110 min. Tuca (672 lug.). Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, tel. 3188-8455. 6.ª, 21h30;sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30e R$ 40 (sáb.). Até 20/8

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