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Peça iraniana abre Festival Internacional de Teatro em São José do Rio Preto

'White Rabbit, Red Rabbit' veta acesso dos atores ao texto até o momento em que sobem ao palco

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h08

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - Proibido de sair de seu país, um artista iraniano, de 29 anos, encontrou no teatro um meio de contar sua história. Transformou o isolamento em mote para sua primeira obra. Escrita por Nassim Soleimanpour, White Rabbit, Red Rabbit já passou por cidades como Londres, Edimburgo, Nova York e São Francisco. Sempre com grande repercussão. O impacto não é por acaso, como poderá comprovar o público do FIT - Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, que abre nesta quarta-feira, 4, a sua programação.

Além do contexto político que envolve sua criação, a peça chama atenção pelas particularidades de sua encenação. Prescinde da figura de um diretor. Elege um intérprete diferente para cada apresentação. E, não bastasse, veta o acesso dos atores ao texto até o momento em que sobem ao palco. "Dirijo os atores na frente do público através do meu texto", disse Soleimanpour, em entrevista que concedeu ao Estado por e-mail. É através de seu endereço eletrônico, aliás, que o autor recebe impressões do público. A cada sessão, os espectadores são instruídos a deixar seus celulares ligados e transmitir, em tempo real, suas mensagens a Soleimanpour.

Em várias das análises escritas sobre o seu trabalho, os críticos apontam, para além das questões políticas, a existência de uma forte reflexão sobre as responsabilidades individuais. Você concorda com essa visão?

Precisamos encarar a realidade. Somos nós que fazemos o mundo. Nós como indivíduos. Nós fazemos as guerras, destruímos terras, abusamos de crianças. Ao não agir, já estamos tomando uma atitude. Nós somos todos seres políticos e precisamos conhecer as fronteiras da nossa obediência.

De que maneira o teatro pode ser um instrumento de ação política atualmente?

Bem, para mim o teatro não pode ser visto como instrumento para nada. É uma maneira de pensar e pôr em prática certas coisas. Algumas vezes, sozinho. Outras vezes, em conjunto.

Você estava proibido de sair do Irã. Como esse fato o inspirou a escrever a peça?

Eu não estava autorizado a deixar meu país porque me recusei a prestar o serviço militar. Mas uma doença ocular comprovou que sou inapto para o Exército e agora consegui obter autorização para deixar o Irã.

Na sua peça, um diretor não é necessário. E um novo ator é escolhido para cada apresentação. Por que você optou por esse formato específico?

Como eu poderia apresentar a minha peça ao redor do mundo se não podia deixar o meu próprio país? Minha resposta a essa pergunta foi: vou dirigir meus atores na frente do público através do meu texto. Minha situação me levou a pensar o teatro de uma nova maneira.

Outro aspecto que chama a atenção é a maneira como os atores devem lidar com esse texto. Por que eles não podem ter acesso à obra antes do momento da apresentação?

É um triângulo: risco, pensamento e criatividade. As pessoas amam esportes. Adoram jogos digitais. O teatro tem a capacidade de se desenvolver em estruturas.

Como essa escolha pode potencializar a sua voz?

Na peça, o ator é vetor para a voz de um autor ausente. Mas esse dado também dá ao ator e até mesmo à plateia a possibilidade de mudar a peça.

Quais são os seus planos como autor?

Estou agora trabalhando em um texto chamado King Cangaroo, em que os espectadores irão assistir e atuar. É um espetáculo sem atores ou diretores.

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