Peça <i>Linha</i> aborda disputa insana pelo primeiro lugar

No palco, apenas uma linha branca demarcada no tablado e um ator. É madrugada. Ele espera. Faz um lanche, espera. É o primeiro de uma futura fila. Pela manhã, chega o segundo. Começa assim o espetáculo Linha, texto de Israel Horovitz que se tornou fenômeno de longevidade nos palcos - desde 1974 está em cartaz no off-off-Broadway. A montagem brasileira estréia nesta quarta-feira, no N.Ex.T., sob direção de Fernando Kinas e cinco atores da cia. Kiwi. Desde o momento em que o segundo personagem chega, começa uma disputa pelo primeiro lugar. Ao fim, cinco deles entrarão nesse mesmo combate. Fila de emprego? Jogo de futebol? A peça não esclarece. Importa a competição. Segundo Kinas, que fez algumas interferências no original, a peça parte de uma ótima idéia, mas o desenvolvimento é um tanto superficial. "O jogo é muito vivo, mas as construções psicológicas - a gostosa que usa as armas da sedução ou o gordinho meio bobo - fragilizam o texto", diz. "O que me parece importante é discutir a insanidade desse vale-tudo para ser o primeiro, algo que em nossa época é ainda mais atual do que na década de 60, quando a peça foi escrita." Para ampliar significados, entre outras coisas, Kinas abriu espaço para os atores assumirem a competição entre atores, intrínseca aos elencos. "É uma aposta. A cada noite eles podem improvisar a partir da idéia de ´roubar a cena´. Há sempre o risco da sujeira, mas trabalhamos bastante para que isso se dê no jogo teatral." Daí que aos nomes dos personagens foram acrescidos os dos atores. Fleming, interpretado por Paulo Alves, o tal que chegou na véspera para garantir o primeiro lugar passa a ser Fleming Paulo. Molly, a sedutora, ganha também o nome da atriz, Chiris Gomes. César Guirao, Lori Santos e Sérgio Pardal completam o elenco. Por mais interferência que se faça, o texto tem por si só um poder de comunicação muito grande, como costuma acontecer com as idéias simples e boas. Um sujeito luta para estar em primeiro lugar e vê um esperto, que chega mais tarde, descansado, tomar sua posição - quem não reconhece tal situação no País onde a "lei de Gerson" impregna o cotidiano? Claro que tal disputa, no palco, se amplia e o público passa a se perguntar por que afinal é preciso ser o primeiro. Mais que isso, será que é preciso mesmo enfrentar a tal fila? São perguntas que a companhia gostaria de ver ressoarem na platéia. Linha. 80 min. 14 anos. Teatro do N.Ex.T. (70 lug.). Rua Rego Freitas, 454, Vila Buarque, 3106-9636, metrô República. 4.ª e 5.ª, 21 h. R$ 20. Até 30/11

Agencia Estado,

01 Novembro 2006 | 13h20

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