Peça funde vídeo, grafite, hip hop e figurino fashion

Antiga - A Milagrosa História daImagem Que Perdeu Seu Herói estréia amanhã no porão do CentroCultural São Paulo (Sala Adhemar Guerra), reunindo uma bateladade linguagens para retratar a trajetória de quatro personagenscontemporâneos mergulhados em narcisismo, intolerância enostalgia. Há as imagens em vídeo de Dudu Barioni, o som degaragem da banda Goduana rolando ao vivo, pichações do MC2,trilha sonora do DJ Noizyman, quatro palcos e uma cenografiacriada por Loira (primeira assistente de Flávio Império), alémde quase uma dezena de figurinos preparados especialmente pelosestilistas Reinaldo Lourenço e Ricardo Almeida. Mas não se podenegar que é uma peça com seu lado convencionalmente teatral: otexto é do dramaturgo Dionísio Neto, o mesmo autor dePerpétua, Opus Profundum e Desembestai, e um dosnomes promissores da dramaturgia contemporânea brasileira.Os ensaios começaram este ano, promovidos pelo ProjetoResidência das Oficinas Culturais Oswald de Andrade, daSecretaria de Cultura do Estado. A peça reúne um elenco degerações diferentes, com José Rubens Chachá e Helena Ignez, DjinSganzerla e o próprio Dionísio. A atriz e assistente de direçãoJeyne Stakflett faz uma participação especial. A peça, com 1h50de duração, é um mergulho nas neuroses de personagens da cidadegrande, que encontram na fala um paliativo possível para seustormentos. "Levei três anos para escrever essa peça, queconsidero um divisor de águas na minha dramaturgia", atestaNeto. "Eu queria falar sobre relações familiares, sobre osfilhos e os pais dessa geração perdida."O texto foi tecido em função da criação de personagens,mais do que das mirabolâncias de enredo. Mas sob o manto barrocodas falas dos personagens (de um barroquismo pós-moderno, éverdade), flagra-se uma história aparentada à equação trágica.Capricórnio (Dionísio) é um outsider, pichador de frasespoéticas nos muros da cidade. Procura pela noite o amigoMustapha, referência simbólica a esse outro que habita cada serhumano. Eles haviam combinado de pichar o Masp na madrugada doréveillon. Na outra ponta, está a burguesia paulistana decadente com Vittorio (Chacha), presidente de uma poderosa corporação demídia, além de candidato à Presidência da República; sua mulherCrista (Ignez), uma diva reclusa em casa há 12 anos, e a filhaadotiva do casal, Gertrúria (Djin), modelo em ascensãopatrocinada pelo próprio pai.Às vésperas da festa de réveillon, Capricórnio,envolvido com Gertrúria, vai parar na casa do magnata, passandoa se relacionar com os membros da família. Numa referência àfesta do bode, que supostamente deu origem às tragédias gregas,Capricórnio traz as marcas do animal, no jeito, no cheiro, nossons que emite. Sinal de mudanças iminentes para aquela família,o outsider envolve-se sexualmente com Crista e embateretoricamente com Vittorio. Pelo reconhecimento de um signocomum aos dois - ambos sangram azul -, descobre-se que o jovem éo filho rejeitado por Vittorio no passado. O fato encaminha atrama a um colapso das relações."Os quatro personagens são como quatro entidades",resume Dionísio, que assumiu a direção da montagem, depois dapassagem de Leonardo Medeiros. "Vittorio é uma espécie de BillGates, é o comando supremo da mídia que dita e gera movimentos;Crista, ao contrário, é antítese do marido, tão apegada avalores humanos, que se nutre só de seu passado vivido nosertão. Gertrúria é a concretização dos projetos da mídia: ela épura imagem. Já Capricórnio é o artista que quer destruir tudo", explica o autor. "Mas eles são contraditórios, eles negamaquilo que também querem", diz. A história é contada em quatropalcos diferentes: as ruas de pichação de Capricórnio, a mansãoda família, o quintal nostálgico de Crista e o escritório domagnata da comunicação.Helena Ignez, que foi a musa do Cinema Novo, terminourecentemente com sua filha Djin a temporada teatral de SavanahBay, de Marguerite Duras. "Crista é uma mulher idílica, quechega a atingir momentos místicos nessa sua reclusão, mas elanão deixa de ser uma vítima da própria psique", argumenta atitular do papel. Para José Rubens Chacha, o texto consegueretratar a vida de um grande canalha (Vittorio), mas com muitobom humor. "É fascinante interpretar um papel como esse",defende o ator, que atuou pela última vez em AcordesCelestinos, com direção dele e de Ary França.Em Antiga (aliás, o título é uma alusão ao que dopassado sempre permanece), há imagens ao vivo e gravadas, com oambiente das ruas de São Paulo. O imaginário de Capricórnio,visto de forma alucinante sob o efeito de ácidos, ganhacontrapeso no telão, com as bucólicas imagens inéditas doartista plástico Hélio Oiticica em uma festa de aniversário. Osatores interagem com as imagens do vídeo, tornandoindissociáveis as representações com as imagens digitais, comoem Zabrinsky Point, de Antonioni, Deus e o Diabo na Terrado Sol, de Glauber Rocha.Antiga - A Milagrosa História da Imagem QuePerdeu Seu Herói. Texto e direção Dionísio Neto. Duração:1h40. De quarta a sábado, às 20h30; domingo, às 19h30. R$ 12,00.Centro Cultural São Paulo - Sala Adhemar Guerra. Rua Vergueiro,1.000, em são Paulo, tel. (11) 3277-3611. Até 16/12.

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