Peça faz espectador usar outros sentidos além da visão

Em cena, tudo ocorre como em uma peça convencional no espetáculo "O Grande Viúvo", em cartaz no Tucarena. Os atores se movimentam pelo espaço cênico e dizem suas falas, com a impostação necessária para a composição de cada personagem. Uma escada ajuda a compor o cenário. Há até músicos executando ao vivo a trilha sonora. Ainda que o público se acomode na própria arena do teatro, isso não é o mais inusitado da produção: o diferencial é que a encenação toda é feita no breu total.

AE, Agência Estado

19 de junho de 2012 | 11h21

Assim é a proposta do projeto Teatro Cego, que os irmãos Paulo Palado, diretor e ator do espetáculo, e Luís Mel, produtor executivo, levam ao teatro de arena da PUC-SP, depois de conhecerem o formato na Argentina, em 2009. Para dar uma cara nacional à produção, Palado adaptou um conto de Nelson Rodrigues, que faz parte da coletânea "A Vida Como Ela É". "Ele já está no inconsciente do público de teatro brasileiro. Isso foi um grande salto para não ter de perder muito tempo no escuro para situá-lo no que está acontecendo."

E sem o recurso da visão, a plateia vale-se dos outros sentidos - inclusive o tato - para apreciar o espetáculo às escuras. Antes de entrar na área preparada para a peça, o público recebe da produtora cultural Paula França, que é deficiente visual e prestou consultoria à produção, de como se portar no ambiente escuro. O teatro foi dividido em quatro partes para abrigar, ali mesmo, uma capacidade de 150 pessoas, separadas por dois corredores por onde se movimentam os atores. Em fila, com a mão no ombro do espectador da frente, as pessoas já entram na sala totalmente sem luz para, com a ajuda de guias, irem encontrando seu lugar.

Logo no início, o som de choro e reza, combinado com o perfume de flores e de vela queimada, indica que estamos em um velório. Em diversos momentos, aromas e sons, como o de uma pá jogando terra sobre um caixão, complementam a encenação dos atores para ambientar a ação. "É como se a gente estivesse dentro da peça, na mesa com os personagens", diz o estudante Marcos Viola, de 18.

Palado diz que, em nenhum momento, a intenção foi de criar um "laboratório sensitivo" na peça. "Tudo o que se faz é em função da cena, de conhecer os personagens", pondera ele, que interpreta o viúvo Jair. A música também serve para a climatização de "O Grande Viúvo". Quatro músicos tocam ao vivo uma espineta (espécie de minicravo), um violoncelo, um violino e um clarinete. "Foi um desafio tocar no escuro", diz o diretor musical Renato Farias.

No elenco, três atores são deficientes visuais e os outros três, videntes (como são chamados aqueles que enxergam). Com uma carreira de 43 anos como músico e compositor, Sérgio Sá iria participar da parte musical da peça, mas pediu para fazer o teste como ator e conseguiu o papel do cunhado desempregado. "Estou realizando um sonho que eu imaginava não ser possível realizar, porque o teatro é uma forma de arte em que a visão predomina."

Assim como Sá, as mulheres do elenco também são cegas. Sara Bentes já havia participado de espetáculos da Oficina dos Menestréis, mas interpretando deficientes visuais. "A experiência do Teatro Cego é diferente de tudo o que já tinha feito. É divertido surpreender o público com as coisas que não estão vendo, mas que vão ouvir e sentir", diz ela. Já a cantora lírica Giovanna Maira estreia como atriz na peça.

Entre os videntes, completam o grupo os atores Manoel Lima e Bruno Righi - este só aparece na cena final, mas tem função importante no desfecho da trama. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O GRANDE VIÚVO

Tucarena (R. Monte Alegre, 1.024, Perdizes). Tel. (011) 3670-8455. Até 26/7. Quarta e quinta, às 21h. 14 anos. Ingresso: R$ 40.

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