Akemi Mitsueda/Divulgação
Akemi Mitsueda/Divulgação

Peça explora saga de Jesus

Em Bielski, Antônio Rogério Toscano trata de acampamento que salvou 1.200 do extermínio

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

Durante a 2.ª Guerra Mundial, três irmãos salvaram 1.200 judeus do extermínio. Refugiaram-se na floresta. Fundaram um povoado e lá acolheram a todos que os procuraram. Velhos, mulheres e crianças. Burgueses e camponeses. Não importava quem eram nem de onde vinham. Para compor Bielski, espetáculo que abre temporada no Sesc Consolação, o diretor Antônio Rogério Toscano e a Cia. Levante lançaram-se sobre esse episódio verídico.

Em seu encalço, recuperaram pormenores e esmiuçaram a dimensão épica de seus personagens. Foram atrás de fontes históricas e documentais. Mas tiveram a preocupação de recusar a estrutura dramática convencional. Valeram-se dos escritos de Bertolt Brecht e Heiner Müller e fizeram do tema a base para uma pesquisa sobre a narrativa e o lugar do ator como narrador. "Optamos por várias camadas narrativas", pontua o diretor, que erigiu a dramaturgia a partir das proposições do elenco. "Não havia como dar conta dessa história por meio de uma representação dramática."

Se quase tudo o que revelam à plateia tem algum lastro no factual, existem também brechas a serem preenchidas por intervenções de dança, canções - que não são necessariamente judaicas, mas carregam algo de religioso ou sagrado - e elementos das artes visuais. "Tudo o que há de ficcional na peça é para que o campo poético possa ser potencializado", comenta Toscano.

Ainda que trabalhe guiada pelos pressupostos lançados por Peter Brook e seu teatro de "palco nu", a companhia fez questão de trazer à cena lastros de Lasar Segall, cuja obra evoca constantemente símbolos do judaísmo e da luta contra a Diáspora.

Na Bielorrússia, os irmãos Bielski começaram a se esconder na floresta com o intuito de escapar da sanha do exército hitlerista. Ao notarem que os soldados não se aventuravam pela mata, criaram células de resistência, onde receberam parentes, amigos e desconhecidos.

Para não serem vistos pelos aviões nazistas que cruzavam o céu a caminho de Moscou, não construíram casas. Preferiram cavar buracos no chão. À noite, saíam pelos vilarejos próximos e saqueavam o que podiam encontrar: comida, utensílios e armas. Dividiam tudo por todos. E tinham em Túvia - um dos irmãos Bielski - seu líder máximo.

Controverso. Não é propriamente desconhecido esse episódio do acampamento na floresta. Jornalistas de renome, como Peter Duffy, já o revisitaram. Ficcionistas também descobriram seu potencial. No filme Um Ato de Liberdade, Daniel Craig aparecia como Túvia.

Ainda assim, lembra o diretor, a saga desses refugiados nem sempre é bem vista pela comunidade judaica. "Há histórias, como a de Oskar Schindler, que são muito mais bem aceitas", ressalva o encenador. Por quê? Talvez porque Túvia Bielski não fosse propriamente um protótipo de herói. Capaz de executar um homem por um motivo fútil, mas também dotado de raro senso de justiça, sabia ser generoso e impiedoso. Magnânimo e rude. Um feixe de contradições.

BIELSKI

Sesc Consolação. Espaço Beta. Rua Dr. Vila Nova, 245, telefone 3234-3000. 2ª e 3ª, às

21 h. R$ 10. Até 1/3.

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