Peça examina fracasso artístico

Eles eram tão, mas tão ruins, que dez anos de ensaio não deram em nada. Mesmo depois de tanto tempo, não conseguiam arriscar mais do que a mesma série de notas desafinadas. Um dia, porém, a sorte do malfadado grupo parece ter mudado: surgiu o convite para que fizessem seu primeiro show. O que não quer dizer que a ameaça do fracasso tenha deixado de pairar sobre eles.

O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2012 | 02h07

É a partir desse prosaico argumento que se organiza o espetáculo A Pior Banda do Mundo, em cartaz no Tusp. Trata-se da segunda criação da jovem Cia. dos Outros. E, assim como já haviam demonstrado em sua obra de estreia, a peça Corra Como Um Coelho, o coletivo volta a apostar em um teatro que escapa das convenções do drama e flerta com o absurdo. Ainda existe uma história a ser contada, mas os tempos aparecem misturados, o presente contaminado por flashes do passado.

O passado aparece também como referência estética para a encenação. "Não localizamos a história em um tempo definido", esclarece Carolina Bianchi, responsável pela concepção da montagem e pela dramaturgia. "Mas existe uma evocação ao passado que acaba aparecendo no figurino e no cenário", diz ela se referindo aos móveis antigos dispostos no palco, aos objetos kitsch, às roupas que remetem aos anos 1960, à paleta de cores muito próxima de tons de ocre e sépia.

A saga desses músicos desprovidos de talento se inspira em uma série de quadrinhos de José Carlos Fernandes. Em sua obra, o cartunista português explora diversos personagens e situações que não necessariamente estão conectados. O que a peça faz - e com competência - é amalgamar essas figuras dispersas em torno de uma fábula simples.

Acompanhamos, em cenas curtas, a rotina de um arquivista, de uma conferencista de objetos de escritório, de um gerente de segurança de um supermercado, de uma datilógrafa que fala um idioma incompreensível. São seres ordinários, homens e mulheres absolutamente comuns, mas que surgem envolvidos em situações nonsense. "Foi observando e entendendo esses personagens que costuramos uma história", comenta o ator Tomas Decina. Eles convivem muito, mas se conhecem pouco. Contradizem-se em diversos momentos. Por vezes, usam uma linguagem que escapa do coloquial. Falas cravadas de humor, porém temperadas de ironia, nostalgia e certo desencanto.

O fracasso iminente e inescapável talvez seja a questão central de A Pior Banda do Mundo. Criaturas que se reconhecem falhas, incompletas, reféns de glórias pequenas, insignificantes. E que ainda assim, misteriosamente, persistem. "De certa maneira, estamos tematizando a nossa condição de artistas, de gente que não tem certeza do próprio talento", acredita Carolina, que também atua como atriz na montagem. "Não precisamos, por exemplo, nos esforçar para demonstrar nossa pouca intimidade com os instrumentos. Nenhum de nos tinha tocado nada antes."

A decadência e a falta de entusiasmo que atravessam o enredo também contaminam a encenação. Aquilo que sempre instigou o grupo como temática foi, propositadamente, incorporado à forma do espetáculo. Em sua concepção, o diretor João Otavio desenhou cenas em que a falta de acabamento é deliberada. Situações esgarçadas, tão falhas quanto seus personagens. Momentos curiosos em que o fracasso se transforma em trunfo da criação. / M.E.M.

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