Peça é inspirada na obra do gaúcho Caio Fernando Abreu

Com 45 metros de comprimento e 5,5 de largura, o mezanino do Centro Cultural Fiesp até lembra uma estrada. Mas é preciso sensibilidade de artista e a magia do teatro para que esse espaço se transforme, de verdade, numa pista onde transitam atores e carros, com direito até a encruzilhada, geográfica e também metafórica. Foi o que fez o diretor Francisco Medeiros e sua equipe na criação do espetáculo B, Encontros com Caio Fernando Abreu, que estréia nesta sexta-feira, mais uma criação do Núcleo Experimental do Teatro Popular do Sesi.Lembrar os dez anos de morte do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) é um dos objetivos dessa montagem. Porém, mais que isso, o espetáculo serve para dar voz à inquietação do elenco, cujos integrantes não ultrapassam os 25 anos de idade. E uma encruzilhada, claro, é um lugar de decisão, de passagem, algo que jovens conhecem bem. "Você não pode ficar numa encruzilhada, é um lugar que exige escolha", comenta do diretor."Quando fui convidado para dirigir este núcleo, pensei em, a um só tempo, prestar homenagem ao Caio e em detectar como a obra do eterno jovem Caio iria repercutir entre estes atores", diz Medeiros. "Mas também achei que não tinha sentido trabalhar com um elenco tão jovem e vir com um texto pronto. Tinha de ser algo de dentro para fora." Coordenado por Isabel Setti, esse núcleo do Sesi oferece um curso de dois anos a 22 jovens atores. Ao final, os integrantes se dividem em duas montagens. Nove ficaram em Encontros com Caio, sob a batuta de Medeiros.O universo poético desse escritor gaúcho - poemas, trechos de contos, cartas, crônicas - serviu de inspiração para uma série de improvisações, criadas a partir de provocações do diretor. Dessa matéria-prima Lucienne Guedes escreveu o texto do espetáculo, que conta ainda com Domingos Quintiliano na iluminação, Duda Arruk e José Silveira na cenografia, Sérvulo Augusto na criação da trilha original e Aline Meyer na trilha sonora. E a música é mesmo uma delícia, a julgar pelas poucas cenas acompanhadas pelo Estado.Logo na primeira cena já se pode ouvir um coro de vozes muito afinadas cantando. Pouco mais adiante, eles surgem dentro de um carro, que desliza sobre trilhos, e convidando uma garota para entrar nesse carro. Há tal vibração em toda a cena que dá vontade mesmo de não "perder esse trem". Na verdade, vibração parece ser a palavra-chave da encenação, constantemente cobrada por Chiquinho Medeiros nos ensaios, e pode compensar no cômputo geral, a pouca vivência dos atores para falar, por exemplo, de dor e separação.Um dos textos - justamente sobre a encruzilhada - mostra os pontos cardeais a partir desse local de escolha. O texto é bastante poético, bonito, mas de forma bem simples, pode ser sintetizado assim. A leste, é o local da ordem, da segurança; quem escolhe esse caminho, às vezes volta, pode voltar. A oeste, é a solidão, o deserto. Mas um deserto bem barulhento, onde não se pode ficar parado. Qualquer semelhança com ´a noite dançante´ não deve ser mera coincidência. E somos informados que quem faz essa escolha, não volta.Ao norte, é uma subida. Íngreme, difícil. Há sacos de lixo no caminho, cheiro de lixo, de podre. Mas lá em cima há belos restaurantes, luxo. Quem vai, não volta, e assim não volta a sentir o cheiro do lixo. Ao sul, o caminho desce, é agradável. Para caminhar ali é preciso confiar, mas se conseguir isso, é uma pista cheia de amigos. Quem vai, não volta, não quer voltar."Tentamos alimentar a criação dos atores com muitos estímulo, desde o filme Hair até textos dos atos institucionais do regimes militares", diz Chiquinho. "A idéia é despertar o juízo crítico sobre o que ocorre no nosso planeta." B, Encontros com Caio Fernando Abreu. 14 anos. 90 min. Mezanino do Centro Cultural Fiesp (50 lug.). Av. Paulista, 1.313, 3146-7405, metrô Trianon-Masp. 5.ª a sáb., 20h30; dom., 19h30. Grátis - retirar ingressos 3 h antes. Até 27/8

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