Peça do CCSP é inspirada em textos de Clarice Lispector

Três mulheres vestidas com roupas meio antigas caminham pelo palco forrado com uma lona azul. Uma delas repete baixinho frases como se fosse um mantra. "Faz-de-conta que eu era sábia", ouve-se num momento, "faz-de-conta que tudo não era de faz-de-conta", em outro. "Podemos ensaiar a música?", pergunta uma delas para alguém que está lá em cima, na mesa de luz. Permissão dada, as três cantam juntas, afinadíssimas, uma canção que soa com aquela delicadeza característica da ausência de microfones.Elas são as atrizes Eliana Bolanho, Daniela Schitini e Juliana Gontijo, da companhia teatral As Graças, que ensaiam Clarices no palco da sala Paulo Emílio, no Centro Cultural São Paulo. Sob direção de Vivian Buckup, com trilha sonora de Lincoln Antonio, iluminação e figurinos de Kleber Montanheiro, o espetáculo estréia nesta sexta-feira para convidados. Há longo tempo na estrada, o palco acabou transformado em novidade para elas. Afinal, há algum tempo elas vêm rodando pela cidade num ônibus que elas transformaram em teatro. Sobre ele, mostram seus espetáculos, para adultos e crianças, em praças e ruas."Clarices é um trabalho bem diferente, intimista, sutil", diz Daniela. Não há personagens ou uma história definida. O texto é uma colagem de crônicas e trechos de contos de Clarice Lispector, a maioria deles extraída do livro A Descoberta do Mundo. Sobretudo nas crônicas - publicadas anteriormente em jornais e revistas -, Clarice toma como ponto de partida o cotidiano, coisas simples como perguntas de seus filhos, uma insônia, ou o comportamento de uma empregada para abordar sentimentos: afetos, ressentimentos, desejos, frustrações.Aos poucos, o espectador começa a reconhecer características específicas em cada uma das três mulheres, como se elas tivessem idades e temperamentos distintos, como se fossem facetas da mesma Clarice."Na verdade, nossa intenção inicial era colocar no palco três velhinhas, mas foi o público que apontou essa diferença entre elas", observa Vivian Buckup. "A intenção inicial não era mostrar facetas da Clarice, mas das atrizes." Todas liam todos os textos, mas aos poucos a distribuição foi-se dando de acordo com o temperamento delas.""A Clarice que a gente traz ao palco não é aquela imagem tradicional, da mulher sofisticada, fumando", diz Eliana. "A gente fez uma brincadeira com o tempo, daí a velhinha, de forma a trazer essa mulher que já adquiriu um grau de sabedoria. Nessa altura, algumas preocupações já perderam o peso. Ela sabe que não há respostas, mas o que importa são as perguntas, a reflexão é a questão", conclui Juliana. Clarices. 50 min. 14 anos. Centro Cultural São Paulo (110 lug.). Rua Vergueiro 1.000, 3883-3400. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 5e R$ 10. Até 6/8. Estréia hoje para convidados

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