Peça discute amor na era da internet

É arriscada a aposta que o dramaturgo Fernando Ceylão faz em Quarto do Nada. Na peça, que entra em carta hoje no Teatro N.Ex.T, o autor carioca lança-se no desgastado e espinhoso território dos relacionamentos conjugais. Ou, para sermos mais precisos, no que se convencionou chamar de "discutir a relação."

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2010 | 00h00

O espetáculo perpassa três histórias distintas. À primeira vista, sem ligação entre uma e outra. Os casais a serem apresentados ao público também parecem ser bem diferentes: há desde matrimônios desgastados até relações que ainda nem chegaram a se concretizar. Entre eles, contudo, existe um traço comum: a necessidade de procurar um espaço vazio, longe das incontáveis distrações do dia a dia, para conseguirem conversar - o tal "quarto do nada" ao qual o título faz referência.

"Esses personagens estão o tempo inteiro conectados - ao telefone, à internet -, mas têm essa dificuldade imensa de se conectarem entre eles", comenta o diretor Luciano Maza. "Não conseguem se encontrar, mas também sentem uma dificuldade de romper, como se houvesse um apego a esse estado de anestesia, mesmo que as relações não estejam saudáveis."

Nessa espécie de painel dos relacionamentos amorosos contemporâneos, a impossibilidade de se comunicar desponta sempre como traço determinante. Trancados no quarto vazio, obrigados ao encontro com o outro, eles ressentem-se da ausência de seus celulares, parecem ansiosos por voltarem a seus e-mails. Como se a vida se passasse em outra instância, sempre pautada por certo grau de irrealidade.

Violência cotidiana. A encenação proposta pelo diretor tenta reforçar esse dado e rejeita qualquer verniz naturalista. A trilha sonora recorre a vinhetas de jogos eletrônicos. Em suas vozes, os atores fazem lembrar desenhos animados ou sons mecânicos. Fazem poses como se estivessem sendo flagrados por flashes de câmeras fotográficas. Vestem roupas de cores fluorescentes. Repetem gestos e diálogos como se fossem autômatos, imobilizados pelo cotidiano. "Em todas as histórias, o diálogo entre eles só será possível após alguma virada violenta. É preciso algum episódio que esbarre na fatalidade para conseguir arrancá-los da cegueira que existe em relação ao outro", observa o diretor.

As narrativas começam sempre revestidas por um tom prosaico. Depois de se conhecerem em uma sala de bate-papo, um homem e uma mulher se aproximam e se tornam amigos. Ela não parece disposta a ter nada com ele, mas não rejeita os presentes e favores que ele lhe oferece. Há ainda um rapaz que desconfia da fidelidade da noiva após vasculhar o seu computador e um casal abatido pelo tédio e pelo marasmo.

Logo, porém, irão se revelar terríveis segredos, episódios de assassinato, pedofilia e até mesmo uma roleta russa feita em troca de dinheiro. /M.E.M.

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