Peça de Plínio Marcos estréia no Orion

O universo dramático sem concessões fáceis ao bom sentimento do dramaturgo Plínio Marcos continua presente. Morto em novembro, o autor ainda é referência para novas montagens e a Companhia Teatral Tanga de Couro faz sua estréia sábado, à meia-noite, radicalizando. Encena Dois Perdidos numa Noite Suja, texto impactante sobre o comportamento da marginalidade, em um teatro fora do circuito tradicional: localizado em meio a outros palcos especializados em strip-tease, no centro de São Paulo, o Orion oferece boa acomodação à violenta história de Tonho e Paco, dois despojados sociais, que travam um tenso diálogo até um final trágico."Escolhemos um teatro especializado em shows pornográficos por ser o local mais próximo da concepção de texto e da própria origem do Plínio, que foi estivador, funileiro, palhaço de circo e também ator", explica Lula Jorge, de 24 anos, analista sênior de finanças de um banco de investimentos, que faz sua estréia profissional como ator ao lado do também estreante Guilherme Pereira, de 23, estudante do 5.º ano de Engenharia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.Apesar de freqüentadores habituais de locais típicos da classe média, Lula e Guilherme decidiram aprofundar-se em uma linguagem cênica popular e, desde janeiro, investiram no aprimoramento de um estilo natural de interpretação. Para isso, vestiram-se de trapos, esqueceram dos modos burgueses e conviveram com mendigos de diversos bairros da capital, misturando-se entre eles.A partir da observação, descobriram detalhes valiosos para a composição de seus personagens, como a forma que um mendigo segura uma colher, faz a barba e até assoa o nariz. Depois de descobrir nas ruas uma carga emocional, a dupla começou o trabalho de lapidação com o diretor Jairo Maciel, que acompanhou Plínio Marcos durante seus últimos anos. Ele optou por uma direção que exigisse mais fisicamente dos atores.O passo seguinte foi ensaiar a peça, nas noites de domingo, nos vãos livres da Praça Roosevelt, na região central, em meio a mendigos, menores abandonados e restos de alimentos. "A base do trabalho foi conseguir o máximo de naturalismo na interpretação, dispensando gestos dispensáveis de braços e pernas", comenta Jairo, auxiliado pela platéia. "Quando os atores não representavam de forma natural, os próprios mendigos reclamavam em plena cena".A decisão de encenar em um teatro como o Orion despertou atenção. Vera Artaxo, viúva de Plínio Marcos, aprovou a decisão e gostou do trabalho, que acompanhou na semana passada, durante uma pré-estréia. "Trata-se do ambiente realmente mais próximo do imaginado por ele", comentou.Sanduíche de mortadela As dançarinas que trabalham na maratona diária de strip-tease (das 13h às 23h30) participaram ativamente dos ensaios, interessadas até no aquecimento corporal que os atores fazem antes de entrar em cena. "Elas adotaram nossos exercícios vocais e passaram a nos ajudar", comenta Guilherme. "E, na pré-estréia, foi empolgante, pois as meninas gritaram, os seguranças levaram suas famílias, os porteiros levaram sanduíche de mortadela para comer durante a peça".Responsáveis pela produção que consumiu cerca de R$ 15 mil, os atores cuidaram também da divulgação da peça, espalhando o cartaz pela cidade. Aos poucos, a curiosidade cresceu, principalmente entre as mulheres. "Percebemos que a curiosidade feminina em conhecer um lugar como o Orion é muito grande", conta Lula. "Cerca de 70% das reservas foram feitas por mulheres".E, para completar o universo criado por Plínio Marcos, os atores decidiram aumentar a produção com mais personagens. Assim, entre as cenas, a atriz Daniela Sevieri interpreta uma prostituta que não tem falas, apenas provoca os protagonistas. A recepção também será inusitada: um bêbado, um cafetão e uma senhora louca aguardam o público. Lula conta que na apresentação da semana passada, os personagens provocaram um certo desconforto. "Mas acabaram ajudando muito a encaminhar a platéia no submundo que pretendemos apresentar na peça".Dois Perdidos numa Noite Suja. De Plínio Marcos. Direção Jairo Maciel. Sexta e sábado, à meia-noite. R$ 10,00. Teatro Orion. Rua Aurora, 753, tel. 9605-6974. Até 10/9.

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