Peça de Nelson Rodrigues será encenada em trem

Não se pode chamar de convencional a montagem da peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, feita pelo diretor baiano Fernando Guerreiro. Ele transformou um vagão da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), que liga a Cidade Baixa ao Subúrbio de Salvador, num teatro ambulante. A peça é encenada pela Companhia de Teatro da Bahia em uma hora e 15 minutos, o tempo da viagem de trem pelo subúrbio de Salvador, onde se concentra o maior número de favelas da cidade.Guerreiro conseguiu adaptar o vagão com cenários simples. A única peça cenográfica significativa é o carpete vermelho que cobre o piso do local. Os bancos foram arrumados de forma a dar mais espaço para os atores e acomodar o público (a capacidade é de apenas 60 pessoas) que fica "em cima" da encenação. "Não se pode camuflar nada, pois pela proximidade do público, o que sair artificial vai ser notado", disse Guerreiro.O teatro apertado, sem ar condicionado, desconfortável, se encaixa como uma luva no universo incômodo e abafado de Nelson Rodrigues. Em meio aos solavancos do trem, o ator Marcelo Prado compõe a sua versão do bicheiro Boca de Ouro, que resolve trocar os dentes perfeitos por uma dentadura de ouro. A trama se desenvolve em torno do assassinato do bicheiro mostrando o submundo do crime que tanto pode ser o Rio, São Paulo ou Salvador. Guerreiro explica que aproveitou a peça para discutir a banalização da violência dos dias atuais. "Fiz as cenas de violência com o maior realismo possível", disse. Isso é ampliado ao extremo pela proximidade do público com os atores.A versão "ferroviária" de Boca de Ouro é uma das atrações mais interessante do verão baiano. A peça estreou na sexta-feira. Os espetáculos ocorrem às sextas e sábados às 21 horas e domingos às 19 horas. O acesso ao vagão-teatro é pela Estação Ferroviária da Calçada e os ingressos custam R$ 20. Boca de Ouro deve ficar em cartaz pelo menos até o fim de janeiro.

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