Peça de Marici Salomão estréia hoje em SP

Uma estação de trem deserta no meio do nada. Ali se dá um encontro meio macabro, meio misterioso e pleno de sugestões entre duas mulheres - uma jovem e uma velha - na peça Bilhete, de Marici Salomão, que estréia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) sob direção de Celso Frateschi. A idéia da montagem partiu da atriz Nádia de Lion, intérprete da velha, que convidou Frateschi para a direção e sua aluna Carolina Miranda para viver a jovem.Uma cidade do interior, decadente, dessas onde o tempo parece ter parado. Ali a jovem se vê obrigada a fazer uma baldeação. Ela está a caminho de uma cidade ainda mais distante em visita a uma velha amiga, que há muito trocara a agitação da cidade grande pela paz de um pequeno povoado. Depois de muitos anos, envia um curto bilhete, um pedido de ajuda, avisando estar doente.Sentada no banco da estação, a jovem lê um livro enquanto espera. Mas sua leitura é a contragosto interrompida pela tagarelice de uma velha moradora do local. Simples carência de velha solitária? Essa é apenas a primeira impressão. Há algo estranho no ar e seu intrigante comportamento vai aos poucos abrindo um leque de possibilidades deixando o espectador a cada momento mais apreensivo. Até o desfecho.Frateschi preferiu não conversar com a autora para realizar sua montagem. "Acho importante esse investimento em novos autores e talvez seja interessante para ela ver, no palco, o que sua peça sugeriu a um diretor. Pelo menos eu espero." Em sua encenação, Frateschi apostou na idéia do duplo. "Elas talvez sejam uma mesma mulher em momentos diferentes de suas vidas. O estimulante é que não dá para saber se a velha é projeção da jovem ou o contrário."Marici aprova a visão. "O duplo foi o ponto de partida." Para a autora, a velha traz a imobilidade, mas também a ironia, a sabedoria, o autoconhecimento adquirido. A jovem está em movimento, mas também carrega uma carga grande de ansiedade e desconhecimento. "Ela está perdida. Está com 30 anos e vive um importante momento de passagem. Talvez as três sejam a mesma pessoa, até a amiga", diz Marici. "O estimulante nesse texto, cheio de imagens poéticas fortes, é que não dá para saber qual delas é real, qual é projeção", completa Frateschi.Mas com certeza, o mais importante, nessa peça, não é decifrar quem é quem. Essencial é a reflexão que ela provoca sobre a idéia do trem perdido na vida. Em qual daqueles três momentos da vida estamos? Ainda é possível pegar um trem? Qual a melhor opção - ir adiante ou voltar? As opiniões certamente serão também distintas.Bilhete. De Marici Salomão. Direção Celso Frateschi. De quinta a domingo, às 18h30. R$ 15,00. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até 16/6. Hoje e dia 13, após o espetáculo, debate com a autora, o diretor e as atrizes.

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