Peça de Jean Genet desmascara espetáculo da mídia

Estréia hoje no centro Cultural do Banco do Brasil a peça Esplêndidos, de Jean Genet, escrita em 1948 e inédita no Brasil. Com elenco formado por atores do porte de Nelson Xavier, o mais velho deles, e Gabriel Braga Nunes e Rodrigo Penna representando os mais jovens, Esplêndidos encena a relação entre mídia e sociedade em forma de profecia. Muitas delas se confirmaram e estão mais atuais do que nunca. A peça, em cartaz no CCBB até 10 de dezembro, conta a história de um seqüestro, em muito parecido com o drama vivido por passageiros do ônibus 174 há quatro meses, no Rio. Uma quadrilha rapta a filha de um milionário, mas o plano não é totalmente bem sucedido e eles ficam presos num hotel de luxo. Cercando o hotel, está um forte aparato policial, acompanhado de um número avassalador de jornalistas. A filha do milionário morre, mas os seqüestradores, para manter em segredo o malogro de seu plano, se travestem e enganam a todos, polícia e mídia, que acreditam que a moça ainda está viva. O rádio é um personagem invisível e poderoso, que vai transmitindo as reações da sociedade e das forças repressoras ao seqüestro. O noticiário, apresentado constantemente e num nível crescente de tensão, é perfeitamente análogo com os plantões televisivos em situações de tragédia nos dias atuais. Genet antecipa a influência da mídia sobre os acontecimentos, transformando-os em verdadeiros espetáculos."O travestimento é a forma encontrada por Genet para prever a realidade virtual da mídia", diz Daniel Herz, diretor da peça. "Todos experimentam ser outro para que não morram sendo o que são". Nada mais atual nesta peça cinqüentenária. Questões como identidade e imagem estão presentes hoje mais do que em 48. "Eu, sendo outro, não morro; quem morre é quem eu acabei de ser", diz Herz, para quem "a verdadeira identidade permanece em algum lugar, em algum tempo".Gerações - Esplêndidos reúne no palco várias gerações de atores, além do diretor, mais velho que a maior parte dos atores e mais novo que Nelson Xavier. "O contato com esse meninos foi muito feliz", diz Nelson. "Além de eles terem me recebido com muito carinho, estou tendo a oportunidade de rever Jean Genet, que eu conhecia apenas superficialmente." Nelson faz Scott, o chefe da quadrilha que comanda silenciosamente o grupo, valendo-se de sua experiência em crimes.Daniel Herz encena pela primeira vez fora da companhia Atores de Laura, criada em Ipanema, na Casa de Cultura Laura Alvim. Com 36 anos de idade, Daniel não esperava ordem ao mudar de atores. "Achei que seria um caos, mas o grupo é maravilhoso e quer fazer teatro radical", diz ele. Além de Gabriel Braga Nunes (o deputado Augusto de Terra Nostra), estão no elenco as promessas Ângelo Paes Leme, Rodrigo Penna, Paulo Hamilton, Bruno Padilha e Hossen Minussi.Esplêndidos - Teatro II do Centro Cultural do Banco do Brasil. Rua 1º de março, 66, Centro. Tel: 808-2020. De quarta a domingo, de às 19:30h. Preço R$10,00.

Agencia Estado,

11 de outubro de 2000 | 14h45

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