Peça de Harold Pinter estréia em SP

Na montagem apresentada no Ágora da peça A Audiência, de Vaclav Havel, os atores Edu Guimarães e Larte Mello mostraram-se um duo de intérpretes expressivos, afinados, capazes de revelar nuances do texto e sustentar o silêncio em cena. A partir de amanhã, ambos voltam a atuar juntos na montagem da peça Traição, de Harold Pinter, que estréia no Teatro Cultura Inglesa. Desta vez a dupla divide o palco com Paula Lopes e Adriano Kiófalo sob direção de Robson Corrêa de Camargo.Traição tem como tema o clássico triângulo amoroso - marido, mulher, amante -, porém tratado por Pinter de uma forma que tangencia o absurdo. "O interessante em Pinter é que, diferentemente de Beckett ou Ionesco, ele não cria situações inusitadas, porém parte do mais absoluto realismo para atingir o absurdo", comenta o diretor Camargo.Mello e Paula vivem o casal Robert e Emma, enquanto Guimarães interpreta o amante Jerry nessa peça que acompanha dez anos de relacionamento na vida do trio, estruturados em nove cenas curtas. O ponto de partida da peça é o encontro entre Jerry e sua amante Emma algum tempo depois de o romance deles ter terminado.Nessa estranha conversa, o público vai recebendo uma série de informações importantes para montar, durante o decorrer do espetáculo, o seu quebra-cabeça. Descobre-se nessa cena, por exemplo, que Jerry e Robert eram amigos de longa data e continuam sendo. E ainda que Robert decidiu separar-se de Emma e ela, em retaliação, contou ao marido o antigo caso. A cena seguinte é o encontro dos amigos. "Mas daí em diante a história volta no tempo, vai sendo contada de frente para trás, mas de forma irregular, cada cena numa época diferente", diz Camargo."E a gente descobre que a traição do título não se refere só à traição amorosa. Na verdade, fica difícil saber quem trai quem e, principalmente, os três são traídos pela memória, pois têm versões diferentes para os fatos", comenta Mello. "Pinter era muito criticado por criar personagens sem passado, sem história, sem perfil psicológico definido", comenta Paula. Nessa peça, então, ele resolveu definir muito bem o perfil de cada personagem. "Mas provou que o absurdo continua lá, dá tudo na mesma", completa Guimarães. "A memória é fugidia. A realidade pode ser estranha", argumenta o diretor.Em sua concepção, Camargo afirma ter optado pela concisão de cenários e recursos cênicos. "O jogo teatral, nesse caso, funda-se mesmo no trabalho dos intérpretes". Kiófalo interpreta o garçom do bar onde os casais realizam os seus encontros.Traição. De Harold Pinter. Direção Robson Corrêa de Camargo. Duração: 75 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. Duração: 75 minutos. R$ 10,00 e R$ 15,00 (sábado). Teatro Cultura Inglesa. Rua Deputado Lacerda Franco, 333, tel. 3814-0100. Até 31/3. Estréia amanhã.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.