Peça de grupo italiano retrata falência do homem

Em O Idiota, o escritor russo Fiodor Dostoievski tentou criar um ser absolutamente bom, capaz de encaminhar o próprio destino e de buscar alternativas para sua salvação. Foi com tal fio condutor que o diretor italiano Roberto Bacci criou o espetáculo O Zurro do Asno, que estréia hoje no Sesc Belenzinho. "Busquei traduzir em ação teatral a essência do drama criado por Dostoievski, que é basicamente a falência do homem", comenta Bacci, que comanda a Compagnia Laboratorio di Pontedera. São todos italianos que, há dias e com a precisa assistência do ator Cacá Carvalho, vêm ensaiando o texto em português para facilitar o acompanhamento do público - por precaução, um programa descrevendo todas as cenas será preparado. "A língua não será barreira para mostrar como o texto de Dostoievski nos ajuda a observar, do lado de dentro, as inúmeras paixões que atravessam nossa vida." A peça conta a história de um jovem e solitário estrangeiro que, em uma certa manhã, escuta o zurro de um asno em uma praça. O som desajeitado e perturbador o convence a tomar o caminho de volta de sua terra natal, a Rússia. Antes, porém, ele participa de um baile de aniversário em que duas famílias vivem uma dolorosa trama de intrigas. "O espetáculo é muito dramático, sendo até violento em seu final", comenta Bacci. "O texto tem a coragem de tocar fundo em certos assuntos importantes." De fato, tão logo o estrangeiro comenta com os convidados do baile sobre a revelação provocada pelo zurro, eles decidem animar a festa realizando, como brincadeira, o casamento do mais bondoso casal da noite. Transformado em "asno", o visitante é disputado em um ritual macabro e faz com que a memória de vidas esquecidas venha à tona, enquanto os outros personagens zombam de seu próprio sofrimento com imitações. "Acredito que o espetáculo poderá chocar algumas pessoas, especialmente pelos insultos irados que os convidados acabam trocando", comenta o diretor, valendo-se das apresentações já realizadas em Pontedera, durante dois meses - de São Paulo, O Zurro do Asno segue para Colômbia, Rússia, Dinamarca, Polônia, Suécia e Israel. Apesar das profundas reflexões que incentiva, a peça é, ao mesmo tempo, muito dinâmica. O grande desafio enfrentado por Roberto Bacci e seu parceiro na dramaturgia, Stefano Geraci, foi não dar um encaminhamento literário à adaptação, mas preservar sua essência filosófica adaptada às necessidades teatrais. "Há uma frase essencial, que representa o legado do mundo russo: ´A beleza salvará o mundo.´ Não se trata de uma visão estética, como seria do ponto de vista de um ocidental, mas de uma pureza, uma ingenuidade que comprovasse a existência de um homem absolutamente bondoso." Bacci trabalhou durante nove meses na adaptação do texto, ao lado de Geraci, e todo o espetáculo se passa durante o aniversário de um dos personagens. "O zurro que o estrangeiro ouve reacende sua consciência e acaba ajudando na sua volta à Rússia", comenta Bacci que, antes do texto de Dostoievski, trabalhou na adaptação de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. "Não diria que um texto me levou ao outro, mas ambos oferecem questões fundamentais sobre a existência humana." A presença da Fondazione Pontedera no Brasil criou vários projetos. De espetáculos a workshops para atores, passando por conferências e programas de cultura teatral, em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Santo André e Rio de Janeiro. Também se destaca a colaboração com o Sesc de São Paulo e os convites para artistas brasileiros que se apresentaram na Itália.

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