Peça de Elias Canetti estréia em SP

Em uma cidade fictícia, a populaçãovive em aparente tranqüilidade. Como todos sabem exatamentequando vão morrer, conseguem programar sua existência.Identificadas não por nomes, mas por números que contabilizam osanos de vida, as pessoas recebem, ainda criança, uma cápsula quefica pendurada no pescoço e na qual está marcada a exata hora damorte. A engrenagem emperra, porém, quando o personagemCinqüenta, insatisfeito com o sistema e aflito por estarchegando sua hora, começa a duvidar da forma de vida e propõeuma revolução.A mesquinhez e a falência dos valores humanos que surgema partir de sua revolta marcam o texto da peça Os Que Têm aHora Marcada, que estréia amanhã, no Teatro Sérgio Cardoso.Escrito pelo búlgaro Elias Canetti (1905- 1994), prêmio Nobel deLiteratura de 1981, o texto revela sua visão crítica do mundo."Ele aponta os defeitos do capitalismo", comenta NelsonBaskerville, responsável pela direção do jovem elenco da Cia. doTeatro Febril, formada por atores saídos do Teatro Escola CéliaHelena. "Afinal, tanto naquela sociedade como na nossa, o queinteressa é acumular, seja riqueza ou anos de vida."A atitude de Cinqüenta revela uma atitude autoritáriaque elimina o livre-arbítrio. Afinal, o destino de cada um estátraçado e cabe ao capsulão (cargo de honra reservado aos homensmais velhos) a tarefa de conferir o conteúdo da cápsula no diada morte dos cidadãos, que não contestam.O que despertou o interesse de Baskerville na peça foi acrueza e a pesada realidade com que Canetti trata o homem e suasangústias. "E ele faz isso de uma forma coletiva, jamaisressaltando dramas pessoais", acrescenta o diretor, que buscouapoio na obra do pensador americano Joseph Campbell na concepçãoda montagem.Campbell prega que é por meio da generosidade e dahumildade que o homem pode dar sentido à vida. Trata-se de umcontraponto à obra de Canetti, que utiliza textos amargos paradeclarar seus libelos contra regimes totalitários. Com isso, elepromoveu uma ligeira modificação no fim da peça - enquantoCanetti não vê saída para os homens, Baskerville prefere deixaruma brecha, na figura de algumas crianças. "Afinal, não estamosno momento de pregar a desesperança", justifica.Os Que Têm a Hora Marcada. De EliasCanetti. Direção Nelson Baskerville. Duração: 100 minutos.Quarta e quinta, às 21 horas. R$ 10,00. Teatro Sérgio Cardoso -Sala Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 153, em São Paulo,tel. (11) 288-0136. Até 13/3.

Agencia Estado,

14 de janeiro de 2003 | 16h54

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