André Katopodis/Divulgação
André Katopodis/Divulgação

Peça de David Mamet foca vazio do presente

Alvise Camozzi dirige obra do roteirista norte-americano

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

Não é fácil estar no presente. Conseguir experimentar, sem subterfúgios ou muletas, o que acontece aqui e agora. Com estreia marcada para hoje, O Bosque encontra nessa impossibilidade seu ponto de partida.

Escrita por David Mamet - o aclamado roteirista e dramaturgo norte-americano - a peça foi lançada há quase 40 anos. Mas, em tempos de redes sociais e rapidez desenfreada, parece adquirir novos sentidos.

Dois personagens que giram em falso, sem conseguir estar juntos, norteiam a trama. À primeira vista, trata-se do desencontro amoroso de um homem (Bruno Kott) e uma mulher (Cristine Perón). Em um cenário idílico, diante de um lago, existe a promessa da felicidade a dois. Um sonho que gradativamente se esgarça. Até resvalar em violência física e psicológica.

Essa narrativa, porém, é apenas a primeira camada da encenação proposta por Alvise Camozzi. "Pessoalmente, essa história do casal não me interessa", observa o diretor. "Mais do que incomunicabilidade, a sensação que emerge da peça é a de uma falha temporal. Os dois não conseguem viver no tempo presente. Não apenas são incapazes de entrar em contato um com o outro, como também não conseguem estar ali."

Não é a primeira vez que Camozzi elege o tempo como temática. A questão já aparecia em relevo em duas de suas montagens anteriores: Babel (2010) e Só (2009), monólogo que rendeu a João Miguel o prêmio Shell de melhor ator.

Mesmo que não encontre no romance em ruínas o foco primordial do espetáculo, o encenador não negligencia a história que está sendo contada. Mantém uma trama a ser seguida pelo espectador. Encara a criação de Mamet como um conto de fadas. "Se fosse numa direção completamente poética, perderia a narrativa e ela é necessária para se criar a ilusão", acredita o encenador.

Aos poucos, é o próprio texto que se encarrega de abrir frestas para novas leituras do espectador. A memória de um transforma-se na lembrança do outro. Diálogos prosaicos ganham um sentido insuspeito. A tinta realista das interpretações mostra não ser mais do que uma casca.

"Essa peça é como se fosse um funil, por onde passam a experiência do teatro naturalista do século 19, o absurdo de Samuel Beckett e o teatro mágico de Harold Pinter", comenta Camozzi.

Estilo. A obra destoa um pouco do estilo que consagrou David Mamet como autor. O roteirista de Os Intocáveis e O Sucesso a Qualquer Preço notabilizou-se pela agilidade extrema de seus diálogos. Um estilo tão particular e reconhecível que mereceria a alcunha de "Mamet"s speak."

Nesse sentido, O Bosque corre na via inversa. "É um texto experimental, em que ele tentou sair um pouco disso e se aproximar dos autores que eram seus mestres", considera o diretor.

A opção da encenação só reforça a peculiaridade dessa peça. No lugar das elocuções vertiginosas, surge uma lentidão proposital, ambicionada.

"Tudo é construído entre um silêncio e outro, entre as pausas", lembra o diretor. "Estamos tão habituados ao corte publicitário das coisas que não suportamos essa oposição."

O BOSQUE

Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, telefone 3113-3651. 3ª a 5ª, às 19h30. R$ 6. Até 27/10.

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