Peça de 2005, '17 X Nelson' retorna em nova versão

Aos 17 anos, Nelson Rodrigues presenciou o assassinato do irmão. Uma mulher entrou na redação para matar seu pai, o polêmico jornalista Mario Rodrigues. Como não o encontrasse, perguntou por um dos filhos e, ali mesmo, disparou contra Roberto. O episódio foi uma, apenas uma das tragédias familiares que marcaram o dramaturgo.

AE, Agência Estado

11 de janeiro de 2012 | 10h28

A ponto de tornar-se, ele mesmo, um amontoado de mortes, perdas e dores. De transformar tudo isso no âmago, na essência do seu teatro. Eis o pressuposto que alimenta "17 X Nelson", espetáculo que abre temporada hoje no Teatro de Arena. O grito de agonia do irmão assassinado serve como fio condutor para o desfile de cerca de 60 personagens, pinçados dos 17 textos que o autor escreveu.

Inserida no contexto das comemorações pelo centenário do escritor, a obra foi concebida como uma retomada da peça homônima que o diretor Nelson Baskerville havia apresentado em 2005. Chega, aliás, no contexto de uma série de remontagens que devem entrar em cartaz no próximo mês.

Gradativamente, porém, a pretensão do encenador modificou-se e deu ao trabalho novos contornos. "A primeira ideia era conservar a forma original", observa Baskerville. "Mas, talvez, não seja parte da natureza do artista repetir-se." Dessa forma, manteve-se o pressuposto de trazer à cena trechos de todas as peças de Nelson Rodrigues. Mudou a forma de amalgamá-las.

Na versão de sete anos atrás, o espetáculo merecia o subtítulo de "O Inferno de Todos Nós". Tratava-se de ressaltar o aspecto dantesco das criações. Optava-se por uma leitura "mais mítica, imagética", segundo palavras do encenador.

Agora, a peça passa a chamar-se: "17 X Nelson - Se Não É Eterno Não É Amor". A explicação é simples. Todas as escolhas são organizadas em torno de dois pilares da criação rodriguiana: amor e morte. "São esses, aliás, os grandes assuntos de qualquer obra do teatro. Não é disso que estamos sempre a tratar?", questiona o diretor.

O grito agônico de Roberto Rodrigues abre e encerra a coleção de assassinatos, incestos, estupros e suicídios que atravessa o palco. Não existe uma linha visível a costurar as cenas colhidas de cada uma das peças. Há, no entanto, o sexo a pairar sempre como estigma da maldição. A fatalidade a impor-se como presença constante, incontornável.

Outro aspecto prenunciado na montagem de 2005 que se adensa é o olhar épico. Os pressupostos da arte de Bertolt Brecht - que impregnaram criações recentes do diretor, como "Luís Antônio - Gabriela" - ganham vulto aqui. Todos os procedimentos de ilusão teatral são revelados ao espectador.

É possível dizer que "17 X Nelson" encontra sua força ao não escamotear o que há de sujo e pestilento na ficção rodriguiana. Faz do mau gosto seu trunfo. Assume aquele uivo dilacerado do irmão como a voz que iria assombrar Nelson Rodrigues. Impulsioná-lo e açoitá-lo até o fim. As informações são do Jornal da Tarde.

17 X Nelson - Teatro de Arena Eugênio Kusnet (Rua Teodoro Baima, 94). Tel. (011) 3256-9463. 4ª e 5ª, 21h30. R$ 20. Até 23/2.

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