Peça critica aridez da inteligência

Considerada uma das melhoresmontagens da mostra oficial do Festival de Teatro de Curitibadeste ano, Almoço na Casa do Sr. Ludwig, de Thomas Bernhard, estréia amanhã em São Paulo, inaugurando um novo perfil deprogramação no Espaço Promon, antiga Sala São Luiz. A montagemvem de Porto Alegre, foi dirigida por Luciano Alabarse e tem oator Luiz Paulo Vasconcellos como protagonista e ainda asatrizes Sandra Dani e Ida Celina no elenco.O Brasil não conhece o Brasil e só por isso causousurpresa no festival a qualidade da encenação. Afinal, todos osartistas envolvidos no espetáculo vêm de longa e premiadacarreira e exercem papéis importantes no cenário teatral gaúcho.Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, foi quem "recomendou" amontagem ao coordenador cultural do Promon, Paulo Fragelli. Issoporque, a partir de outubro, vai ter início uma parceria entre oespaço e o Grupo Tapa, que estréia ali seu próximo espetáculo,Executivos, do francês Daniel Besse."O público paulistano verá uma peça mais madura, comcenas mais definidas. Na nossa estréia, em Curitiba, eu mesmonão achava que o espetáculo estivesse pronto, acabado. Presteimuita atenção em todas as críticas, levei a sério asconsiderações e algumas delas tornaram-se importantescontribuições para mudanças, até mesmo de concepção,principalmente no primeiro ato. Todas feitas antes da estréia emPorto Alegre. Agora a peça já viajou por vários estados e arecepção têm sido muito, muito boa", comenta Alabarse.Como o título brasileiro indica, a peça gira em torno deum almoço preparada pelas irmãs Dene e Ritter para recepcionarem casa o irmão Voss, que acaba de sair de um hospício - otítulo original da peça é Dene, Voss, Ritter. O personagemcentral de Almoço é inspirado no filósofo austríaco LudwigWittgenstein. De família rica e poderosa - seu pai era diretorde siderúrgica e sua mãe filha de um banqueiro - era um jovemdeprimido até mergulhar no estudo da filosofia. Além dos livrosque redigiu, foi voluntário na 1.ª Guerra e doou sua fortunapara as irmãs.Thomas Bernhard foi igualmente uma criança doentia e suainfância coincide com a ascenção nazista. Escreveu grande partede sua obra no pós-guerra, durante a guerra fria. Num momento emque a Europa pensava em reconstrução e a burguesia preferia nãopensar no passado recente, Bernhard fazia questão de mostrar, emsua obra, sua aversão à sociedade. A peça tem três grandescenas. Na primeira, as duas irmãs preparam a mesa para umesperado almoço familiar enquanto o irmão, recém-chegado de umperíodo de internamento num hospício, toma um banho. Aos poucos,durante o almoço, as tensões e os ressentimentos vão vindo àtona, até explodirem ao final."Trata-se de um ajuste de contas familiar envolvendopersonagens inteligentes, brilhantes, mas muito infelizes",observa o diretor. "Sem panfletarismos, Thomas Bernhard fala deuma gente que tenta resolver e compreender o mundo unicamentecom instrumentos intelectuais. Falta corpo, sentimento. E elemostra a falência dessa tentativa, mostra como a inteligênciapode ser árida."Atualmente já está no domínio do senso comum oconhecimento de que a infância é um período determinante naformação do ser humano, com reflexos permanentes nocomportamento adulto. "Isso que todo psicanalista está cansadode saber é matéria com a qual Bernhard trabalha, sem explicitar.Na peça, ele confronta dois aspectos de Ludwig, sua maturidadeintelectual em constraste com sua infantilidade emocional. Dealguma forma ele não cresceu. E pensa que a inteligência éauto-suficiente."Alabarse traça um paralelo entre o comportamento doprotagonista e dos movimentos políticos econômicos do mundocontemporâneo. "O poder em um mundo globalizado pensa que podecontrolar tudo unicamente com os códigos da economia. E o que sevê é uma sofisticação imensa na área tecnológica que nãoconsegue evitar o crescimento galopante da miséria em todo omundo."Ao contrário da montagem dirigida por Maurício Paroni,que fez temporada no CCSP, Alabarse optou por mais realismo nasua concepção. "Bernhard é uma autor de convenção realista enão tive medo disso, de parecer anacrônico. Pelo contrário.Mergulhei fundo no realismo cujo risco maior é desembocar numteatrão mal feito, subserviente ao texto. Pela reação da críticae do público, acho que esse desafio foi superado. Nunca haviafeito nenhuma encenação tão inflexivelmente realista e oprocesso me deu bastante satisfação."O público estará diante de um cenário que remetediretamente a uma aristocrática mansão vienense. "A peça élivrevremente inspirada em Wittgenstein que era filho do rei doaço na Áustria, nasceu em uma família riquíssima. Essasofisticação é importante nesse almoço."Almoço na Casa do Sr. Ludwig. Drama. De Thomas Bernhard. Direção Luciano Alabarse. Duração: 110 min. 6.ª e sáb. às 21 h; dom., às 19 h. R$ 20 e R$ 25 (sáb.). Espaço Promon. Av. Juscelino Kubitscheck, 1.830, São Paulo, tel. 3847-4111. Até 1/9.

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