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Peça 'Credores' ganha versão radical de Nelson Baskerville

Clássico de August Strindberg, montagem estreia nesta quarta-feira, 14, no Sesc Ipiranga

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

14 de novembro de 2012 | 02h07

Aproximar o enredo de uma peça escrita no século 19 das reflexões sobre as fluidas e inconstantes relações amorosas da pós-modernidade pode soar como um despropósito. Certamente seria, não fosse o autor em questão August Strindberg, observador arguto dos conflitos que a emancipação feminina viria a deflagrar.

Uma de suas criações mais conhecidas e reverenciadas, Credores estreia nesta quarta-feira, 14, no Sesc Ipiranga, em nova montagem. Desta vez, filtrado pelo olhar anárquico de Nelson Baskerville - diretor que mereceu o Prêmio Shell deste ano pelo espetáculo Luís Antônio - Gabriela.

É a segunda vez que Baskerville se aventura pela obra do dramaturgo sueco. No início do ano, encenou Brincando com Fogo, comédia em que os vínculos conjugais apareciam esgarçados. E lá, assim como faz agora, não temia intervir com mão pesada em um texto clássico. Reforçava o humor apenas insinuado no original. Tornava ainda mais evidente o ridículo das desavenças entre sexos. "Não tenho nenhum pudor em mexer no texto só porque se trata de Strindberg", afirma o encenador. "Brincando com Fogo foi, de certa forma, um ensaio para o que estou fazendo agora."

Em Credores, Strindberg também está a dissecar as armadilhas do casamento. A diferença está na maneira de fazê-lo: tomado por um ímpeto ainda mais impiedoso e acre. Examina o interior de um triângulo amoroso. Flagra as fragilidades de um homem apaixonado, põe em evidência os cruéis mecanismos de poder e dominação que regem o território que tanto nos esforçamos para imaginar idílico.

Nesta versão da Cia. Mamba, uma quarta personagem surge para atenuar o cenário de opressão que cerca a protagonista feminina. Mas não esgota a carga de misoginia que embalava Strindberg. Passado mais de um século, o propalado discurso da igualdade não conseguiu apagar o fato de que o acordo de monogamia permanece a ter dois pesos e duas medidas.

Outra diferença está na ambientação e na linguagem. Ainda que não haja referências temporais, a trama parece transportada à contemporaneidade. Ressoa incomodamente próxima, cotidiana. Tanto, que poderia ser a leitura fictícia de Amor Líquido, o terrível diagnóstico que o sociólogo Zygmunt Bauman escreve sobre a precariedade dos atuais laços afetivos. "Foi preciso livrar-se da linguagem empolada para chegar à verdade", acredita Baskerville. "Não se trata de modernizar. Não é necessário fazer isso. Apenas considerar com que olhos o público de hoje está assistindo a essa peça."

Toda a ação está circunscrita a um ateliê de escultura. Atormentado pela possibilidade de ser traído, o marido imprime a figuras de barro os rastros do seu desamparo. Mas ele não será o único a valer-se do procedimento. "Estão todos tentando construir alguma coisa, mas também se sujando durante esse processo", lembra Baskerville.

Sujos de lama e de tinta, homens e mulheres chafurdam nas incertezas do encontro amoroso. Recorrem a canções que conhecemos - Radiohead, Chico Buarque, Gonzaguinha - para traduzir o seu espanto. Percebem-se, como quase todos nós, irremediavelmente sós.

CREDORES

Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822; 3340-2000.

3ª a 5ª, às 21 h (feriados, às 18 h). R$ 16.

Até 13/12.

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