Peça com ator paulista é premiado com o Molière

No mundo do espetáculo parisiense, o paulistano Antonio Interlandi é apontado, hoje, como exemplo de um êxito brilhante em matéria de reciclagem: 5 anos depois de haver deixado a dança "pura e dura" pelo teatro, ele se sente "nas nuvens", pois o musical Les Peines de coeur d?une Chatte Française - ainda em curso na França e do qual é o ator principal - acaba de ganhar o cobiçado Prêmio Molière como o melhor show do gênero na temporada 99/2000, que termina agora. Ao mesmo show, concebido a partir do conto com idêntico título de Jean-Pierre Stahl e dirigido por Alfredo Arias e M. Marini, numa produção franco-italiana, foi atribuido também o Molière pela melhor criação de figurinos.Para interpretar o papel do gato Brisquet, a fonte de todos os males da história, inspirada, nesta versão musical, da fábula de Balzac Os males de Amor de uma Gata Inglesa (também encenada por Arias nos anos 70), Antônio foi escolhido entre os 250 atores inscritos em Paris para o teste respectivo. "Fiquei atônito ao me ver colocado em primeiro lugar, mesmo me sabendo afiado no repertório de canções francesas e italianas e nos monólogos à Dario Fo e nas demais cenas que tive de representar na prova", ele precisa.Sua comemoração "prá valer" pelos dois Molière será em setembro debaixo de uma jabuticabeira bem carregadinha na fazenda da familia em Jaraguá (Goiás), Antônio anuncia ao Estadao.com.br, lembrando que há 16 anos não chupa jabuticabas "tiradas direto do pé e por isso as mais gostosas".Há 16 anos, ele chegava à Europa para cursar a Academia de Dança Clássica de Monte Carlo, graças à bolsa de estudo que obtivera depois de frequentar a Escola de Dança Stagium de São Paulo e de realizar estágios no Teatro Municipal do Rio de Janeiro sob a direção de Dalal Ashcar e de Fernando Bujones. Tinha 18 anos ao empreender a travessia para a ribalta européia.Ao concluir a formação na Academia, foi contratado pela companhia Ballets de Monte Carlo, com a qual, em 6 anos de trabalho, participou de turnês pelo mundo inteiro, turnês sempre prestigiadas em suas escalas mais importantes pela presença da princesa Caroline de Mônaco, a benfeitora das artes no Principado.Com vontade de "variar" após tanto anos de repertório clássico entre Gisele, Lago do Cisne, Coppelia, o dançarino paulistano, em 1991, trocou Monte Carlo por Hamburgo, onde o coreógrafo norte-americano John Neumeier, que já o conhecia, desenvolvia uma linha de criação moderna, na qual se incluia a vertente da comédia musical.Depois de atuar em produções memoráveis pelo Europa, Estados Unidos e Japão, entre as quais Da Paixão Segundo São Mateus, Requiem (com Barbara Hendricks cantando em cena) e Sonho de uma noite de Verão, Antônio, no seu quarto ano de Hamburgo, teve a chance que iria modificar e/ou ampliar a trajetória carreira artistica. Foi chamado a integrar o elenco de On the Town, a célebre comédia musical de Leonard Bernstein (já objeto daquele filme com Frank Sinatra e Gene Kelly), com essa particularidade essencial: não iria apenas dançar, mas cantar e falar no espetáculo.Na verdade, ele já vinha se organizando para "por a voz na cena" desde Mônaco, onde se iniciou no canto na Academia Prince Rainier III. E prosseguiu esses estudos na Escola de Comédia Musical de Hamburgo.Encerrado o musical, Antonio não quis mais se calar. E achou por bem que a pátria de Molière era o lugar mais conveniente para explorar a palavra. Mudou-se então para Paris no final de 95, foi admitido mediante concurso na Ecole du Théâtre National de Chaillot, sob a direção de Jerôme Savary e Phillipe Du Vignal, "descobriu" Racine, Faydeau, Labiche, Hugo, Rimbaud e confiou o trato de sua voz, timbre, entonações e dicção em francês (que já falava fluentemente) à mestra Nita Klein, com quem prepara até hoje, sistematicamente, todos os seus textos. "Por mais que o artista domine uma língua estrangeira, há sempre sutilezas idiomáticas, nuanças da prosódia e da semântica, o ritmo de cada peça que precisam ser burilados", observa.Sua "prova de fogo" no Teatro Nacional de Chaillot, em 1996, em cima de uma comedia musical (L?Impromptu de Chaillot) não poderia ter sido mais auspiciosa: ele trabalhou com Cristiane Legrand, irmã de Michel, considerado o "pai-fundador" do jazz francês e "fanática assumida" da MPB.Daí em diante, Antonio soltou a língua em representações de Molière, Shakespeare, Racine, Pirandello, Dostoievski alternadas com musicais que alcançaram notável sucesso (Les Z?années Zazous, La Fièvre des Années 80, no Folie-Bergères, Les Voix Liées Chavirent Nougaro, apresentado no Festival de Avignon do ano passado), para não falar de sua elogiada atuação na clássica opera-bufa La Vie Parisienne, de Offenbach.Além disso, entre 97 e 98, efetuou suas primeiras incursões no campo do cinema, fazendo uma "ponta" no filme O Homem da Máscara de Ferro, de Randal Wallace, com Leonardo di Caprio e Gérard Depardieu. Depois foi escolhido para uma cena com Juliette Binoche em Les Enfants du Siècle, de Diane Kurys. "Na cena, eu tirava Juliette para dançar numa festa de casamento depois explicar-lhe como se enrolava o macarrão no garfo", ele esclarece, para em seguida assinalar com o fairplay do bom jogador: "Na montagem, cortaram o episódio, mas ficou-me a memória de uma belíssima atriz e o começo de uma amizade, quem sabe".No seu fascínio pelos desafios, Antonio pensa agora em transpor nova fronteira - a da criação propriamente dita, capaz de reunir as três expressões de sua arte ? a dança, o canto e o teatro. Para tanto, espera contar com a colaboração do diretor e dramaturgo Jean Gilibert, que ele adora e com quem já trabalhou em dois espetáculos bem sucedidos. Sua primeira idéia é a de compor um espetáculo a partir dos sonetos de Shakespeare, no qual possa compatibilizar suas diversas virtualidades artisticas. Não é menor seu desejo de criar algo em torno do Diário de Niginski dentro desse mesmo espírito de fusão teatral.Mas, por enquanto, tudo o que Antônio almeja é terminar a temporada deste ano na França com o musical Les Peines de coeur d?une Chatte Française (que voltará ao cartaz em outubro) e voar em setembro para Goiás ao encontro da família e de seus três irmãos músicos. Seus pais, Sebastião Interlandi e Jeanne Marie de Freitas, uma das fundadoras da Escola de Comunicações e Arte da USP e professora de jornalismo da instituição, já mandaram isolar na fazenda em Jaragúa a área das jabuticabeiras, para que a quintessência da safra e de seu sabor se ofereça ao ator laureado com o mais prestigioso prêmio do teatro francês.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.