Peça censurada estréia 30 anos depois

Enquanto se Vai Morrer... é dessas peças que têm muito a dizer pelo texto e pelo contexto. Escrita em 1972 pela poetisa, dramaturga e teórica Renata Pallottini, foi vetada em 73 por "atentar contra a legislação vigente". Ganhou leituras dramáticas (uma durante o regime militar, com direção de Celso Nunes), mas nunca foi montada, em virtude do alto custo e elenco numeroso. O jejum é quebrado agora, sob a direção de Zecarlos de Andrade, que manteve a indicação original do texto: ser representado por um elenco jovem. A peça estréia hoje com estudantes da Faculdade Paulista de Artes, na escadaria da Faculdade de Direito (USP) do Largo São Francisco, rendendo homenagem ao ambiente estudantil."É uma peça que fala basicamente em liberdade e em tortura. Na época da proibição, fiquei muito abalada. Eu fazia a revisão de minha vida na faculdade e o texto tinha saído com muita força e verdade", diz a autora de O Crime da Cabra, O Escorpião de Numância e da trilogia O País do Sol, Colônia Cecília e Tarantella, que ainda guarda o documento com o parecer da Censura Federal. Decepção também para os formandos de 73 da Escola de Arte Dramática (EAD) e da Escola de Comunicação e Arte (ECA) da USP, obrigados a interromper o processo de produção da peça, com a direção de Celso Nunes.Renata estudou Direito no Largo São Francisco, nos anos 50, e traduz sua experiência no alter ego Cláudia, uma estudante sedenta de conhecimento e apaixonada por poesia. Ela se liga a Álvaro, estudante vindo do interior, também apaixonado por poesia, ótimo orador e engajado politicamente. Os personagens mantêm laços até os anos 70, quando, com Álvaro exilado no Paraguai, fazem um balanço de suas vidas por meio de cartas. A autora lembra tratar-se de uma "quase" história de amor, já que "os desencontros entre eles acabam se revelando maiores que as afinidades".De fato, a principal arma de ataque do texto são as discussões no âmbito acadêmico sobre o direito de torturar e matar um semelhante, e a ausência de liberdade. Os tempos se interpenetram em três eixos: 1932, anos 50 e 70. No primeiro caso, faz-se homenagem ao bravo estudante que se alista em 32, para lutar na Revolução Constitucionalista, que explodiu no governo Vargas, em 9 de julho daquele ano. "Meu pai, que foi voluntário na Revolução e deixou as cartas e as lembranças desse período, foi grande inspiração."Dos 50, os trotes, as peruadas, as reuniões da Bucha, os concursos de oratória, a influência do poeta romântico alemão Julio Frank e do marquês de Beccaria (pai do clássico do direito penal do século 18 Do Delito e das Penas, em que se opunha à tortura e à pena de morte) dão vigor à vida acadêmica dessa fase. E 1970, que é apreendido no momento em que as autoridades ligadas à educação querem transferir a Faculdade para o campus universitário.A autora respirou os anos da ditadura como parte dos artistas brasileiros. Dividia os pequenos tablados instalados em frente de teatros, livrarias e o que fosse, para declarar poesias, um dos braços fortes de sua atuação. "Tive vários poemas vetados", ostenta Renata, que se tornou um dos principais nomes da dramaturgia no Brasil. Foi professora de dramaturgia na graduação e hoje leciona na pós-graduação. Também coordena o Núcleo de Estudos de Telenovelas da ECA/USP. Seus livros de teoria mais conhecidos são Introdução à Dramaturgia, Construção do Personagem e Dramaturgia de Televisão.Em teatro, As Cidades Invisíveis,que adaptou da homônima de Italo Calvino, foi encenada no CCBB, ano passado. Também de sua autoria, Melodrama, tem previsão de estréia em outubro próximo com direção de Beth Lopes. Na poesia, Renata acompanha o lançamento de Um Calafrio Diário, enquanto se debruça sobre a vida da militante comunista e companheira de Prestes, Olga Benário, tema de sua próxima peça.Para Enquanto se Vai Morrer..., Zecarlos de Andrade reuniu 25 estudantes de artes cênicas da Faculdade Paulista de Artes, que cantam, dançam e representam. "Namoro esse texto desde que foi escrito, quando eu era aluno de dramaturgia da Renata, na USP." Para o diretor, a peça "propõe liricamente que as pessoas voltem a acreditar e lutar por suas ideologias". Como os versos do poema ao Soldado de 32, que dizem "Quando se sente bater no peito heróica pancada/ deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer..."Enquanto Se Vai Morrer... De Renata Pallottini. Direção Zecarlos de Andrade. De 4.ª a 6.ª, às 21 h. Grátis (retirar convites com uma hora de antecedência). Faculdade de Direito Largo São Francisco. Largo São Francisco, s/n.º. Até sexta.

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