Peça busca inspiração em conto de Drauzio Varella

Ao retratar a existência miserável dos desamparados, Plínio Marcos se autodefiniu como repórter de um tempo mau. Seus personagens - prostitutas, cafetões, travestis - fazem jus ao conceito de "marginalizados". Abandonados desde a infância, sem acesso à formação e por isso alijados do sistema produtivo, vivem no limite da sobrevivência, luta diária na qual de pouco valem as regras da civilização. No Brasil, foi pioneiro em trazer esse universo aos palcos teatrais. Suas peças denunciam um estado de coisas que a classe média - predominante nas platéias - prefere ignorar: primeiro relegamos uma parte da humanidade a viver em condições selvagens; depois a culpamos por agir como feras.Quase meio século depois da criação de Barrela pouca coisa mudou no Brasil no que diz respeito à distribuição das benesses da civilização; e o sistema carcerário, com certeza, piorou. Durante anos atuando como médico no sistema prisional, Drauzio Varella parece se valer da ficção literária movido por um impulso semelhante ao de Plínio Marcos. Seu conto Bárbara, ambientado no pavilhão cinco do Carandiru, atraiu o também médico, e ator, André Fusko, que projetou levá-lo ao palco em duas versões.A primeira, escrita por Aimar Labaki, O Anjo do Pavilhão Cinco, já cumpriu temporada e foi bastante fiel ao original. No conto, a travesti Bárbara é a "primeira dama" do pavilhão, "mulher" do líder Xalé, mas essa relação sofre um abalo com a chegada de Galega, uma travesti operada. Encenada na chave realista, a montagem tinha como principal mérito revelar que no violento Carandiru as regras existem e são rígidas, porque são toscas. Os fortes mandam, os fracos obedecem, entre os últimos, as mulheres. E quem não é homem, é mulher - como tal os homossexuais são tratados - e, portanto, deve se submeter. Não há espaço para semitons ou nuances nesse mundo primevo.Escrito por Sérgio Roveri e dirigido por Luiz Valcazaras, o espetáculo Abre as Asas sobre Nós, em cartaz no Teatro dos Satyros, é a segunda - e muito bem-sucedida - versão do conto. Livre da obrigação de fidelidade, Roveri o recria aparentemente com muita liberdade. Mas só aparentemente. A poética é outra, mas o essencial foi mantido. Bárbara "ainda" está livre e divide apartamento com Galega, sua colega de prostituição, ambas submetidas à tirania do cafetão Xalé. O elemento que vai desestabilizar essa relação, desta vez, é Paulo Preto, vivido por Fusko, personagem secundário ampliado por Roveri. Criador de pássaros que sempre voltam à gaiola, ele carrega a metáfora que parece servir tanto para os personagens como para o autor da peça: salvação para essa gente, só quando os tempos forem outros. Sua condição social ainda é marca de um destino trágico. Mas assim como no original, a noção de dignidade resiste como traço mais humano em meio à degradação.Em sua encenação, Valcazaras valoriza a metáfora criada por Roveri ao torná-la visual pela cenografia, que remete a um viveiro de pássaros/homens. Amplia a tensão do texto ao inverter a ordem das cenas, começando a peça pelo desfecho trágico, sem entregar inteiramente o jogo. E sobretudo, dirige o elenco, Emerson Rossini (Bárbara), Walmir Pinto (Xalé), Rodrigo Gaion (Galega) e Fusko com mão segura, "secando" movimentos, quase coreografados sob iluminação de recortes e focos, fugindo assim de clichês e exageros muito comuns na criação em palco de tipos como travestis e cafetões. Sob sua direção, o universal - solidão, sonho, desejo, dores - nesses homens salta sobre o típico, abrindo espaço para a identificação, e compaixão, do público. Abre as Asas sobre Nós. 16 anos. Satyros Dois (40 lug.). Pça. Roosevelt, 124.2.ª a 4.ª, 22h30. R$ 20

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