Ana Fuccia/Divulgãção
Ana Fuccia/Divulgãção

Peça 'Babel' faz incursão pela ficção científica

Texto da dramaturga italiana Letizia Russo recusa os clichês do gênero

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2010 | 06h00

No futuro, tudo será exatamente igual. Só que um pouco pior. Babel, peça da italiana Letizia Russo que entra em cartaz hoje no Sesc Pinheiros, pretende-se um retrato desse devir hipotético. Sem apelar para androides ou seres evoluídos, a autora lança-se à ficção científica, gênero difundido na literatura e no cinema, mas ao qual a dramaturgia ainda parece pouco afeita.

 

O texto convoca apenas dois personagens para apresentar um mundo em que o controle sobre os seres é absoluto. Homens podem ser comprados uns pelos outros, precisam ter dinheiro para se eleger a cargos públicos e não têm a liberdade de escolher onde moram. Um enredo que bebe diretamente em Philip K. Dick, o autor que inspirou o Blade Runner, de Ridley Scott, e também acolhe rumores dos filmes de Andrei Tarkovsky, em especial Solaris e Stalker.

 

Em sua composição desse quadro, o diretor Alvise Camozzi - compatriota de Russo que trocou Veneza por São Paulo - nos expõe apenas o que se passa dentro de um cubo branco. É aí que acompanharemos os diálogos entre Falena (Rodrigo Fregnan) e Boccuccia (Caroline Abras). Em situação privilegiada, ele mora num andar alto de Babel, a imensa cidade-condomínio que dá título à história. Do lado oposto, Boccuccia é uma bailarina que, após perder um braço, precisa se mudar e ocupar um apartamento na parte mais baixa: espaço reservado para aqueles (gordos, deficientes...) que escapam aos "padrões de normalidade".

 

De novo. Não é a primeira vez que o diretor monta uma obra da dramaturga. Em 2009, ele escalou o ator João Miguel para protagonizar Só, peça que resgatava as memórias de um homem, que reencontrava o amor da juventude. Em Babel, as reminiscências do passado cedem lugar a um pretenso futuro. Mas, se a temática é distinta, muito da dicção particular da dramaturga, nos lembra o encenador, ainda está presente. "As relações de tempo e espaço dentro do texto são questões muito fortes para ela."

 

Assim como já demonstrava em Só, a escrita de Russo dispensa a pontuação. Em Babel, não há vírgulas ou interrogações. Apenas pontos finais. Outro traço distintivo de sua ficção é a maneira de utilizar os tempos verbais, rejeitando o subjuntivo. As cenas são curtas. Flashes de cinco momentos na trajetória dos protagonistas, que são interrompidos, na encenação, por incisivas intervenções sonoras.

 

A maior ambição da dupla, em todas as passagens, é conseguir escapar de Babel para tomar a "nave" - instância de libertação, que pode ser um lugar geográfico ou apenas uma dimensão imaginada. "É uma reflexão sobre como enxergamos a utopia hoje", pontua o diretor.

 

Para contrapor-se a essa aura, Camozzi dá aos diálogos um tratamento naturalista, como se estivéssemos diante de um drama convencional. "Reforço um jogo entre opostos, provocando um estranhamento entre o clima do texto e as falas naturalistas."

 

Opostos também são Falena e Boccuccia, ele sinaliza. "O que se dá é um conflito de poder mascarado de relação amorosa. Eles estão sempre tentando interditar o desejo do outro."

 

Babel - Sesc Pinheiros. Teatro. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 6ª e sáb., 21h; dom., 20h. R$ 16. Até 7/11

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