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Peça 'As Polacas' relata a prostituição de judias no Brasil

O espetáculo, criado e dirigido por João das Neves, está em cartaz no Sesc Ipiranga em São Paulo

O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2012 | 03h10

Crítica: Jefferson del Rios

O espetáculo As Polacas - Flores do Lodo, de João das Neves, tem algo de Noel Rosa, embora os compositores do enredo sejam Ismael e Moreira da Silva. Quando ouvimos os versos "palmeira do mangue/ não cresce na areia de Copacabana", de Noel, poucos se dão conta do que está por trás dessa geografia física e humana do Rio de Janeiro.

O mangue - um alagado com plantas aquáticas - é também o canal construído ainda no Império para drenar o pântano que havia no centro do Rio antigo. Vistosas palmeiras foram plantadas nas suas margens. Como a realidade é sempre menos poética, fez brotar naquela área uma zona de baixa prostituição que virou lenda, miséria, crime e música em contraponto ao problema social.

Nesse mundo de mulheres, sexo e doenças, viviam as negras e estrangeiras rústicas. O proletariado do prazer que a conveniência promoveu a francesas irresistíveis. Não eram. No meio ao falso ar parisiense ecoava a expressão "polacas". Porque, sim, eram moças judias da Polônia que acabaram no Rio à força, vítimas da Zwi Migdal, organização criminosa de tráfico de mulheres surgida na Polônia de 1867 à 2.ª Guerra. Esse sistema suplementarmente tenebroso, por ser operado por judeus vendendo sua gente, funcionou entre a Europa e o Brasil e Argentina. Custou a saúde e a vida de pessoas indefesas. Parte delas está enterrada em um cemitério judaico de Inhaúma, subúrbio do Rio, onde tem início, ou termina a obra escrita e dirigida por João das Neves com um elenco impecável.

A peça coincide com o lançamento do livro Passagens - Literatura Judaico-alemã entre Gueto e Metrópole, de Luis S. Krausz (Edusp), estudo consistente e bem escrito sobre o quadro de errâncias de um povo do qual as polacas são personagens laterais ou implícitas.

O tema principal de Krausz é mais abrangente, mas há nele em comum com essas prostitutas a situação de trânsito, exílios e tentativas de assimilação e integração. O real drama brasileiro das polacas aparece sem maquiagem em Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição, de Beatriz Kushnir (Editora Imago). O enredo de João das Neves tem outros caminhos - e Beatriz não o avaliza - ao falar da origem e alegria do samba e da mestiçagem. De certa forma, poderia se chamar Cenas do Rio Antigo porque, embora seja um artista com sabidas preocupações ideológicas, o seu texto evita a polêmica. Está entre a denúncia vaga e a reiteração do espírito carioca mais leve.

Como é um espetáculo na fronteira do saudosismo, só faltou incluir os portugueses ainda presentes em certo Rio, dos portais e janelas de granito à culinária (extinta na São Paulo italiana) e ao futebol do Vasco da Gama, primeiro clube a incluir negros no time. Assim, teríamos um painel alargado dentro da dialética do autor: a de revelar o Rio que teria se habituado a fechar os olhos para a violência contra os pobres e a reação dos mesmos ao tecerem laços de solidariedade.

De qualquer forma, é uma dramaturgia bem encenada com referências históricas e culturais do Mangue ao berço do samba na casa de Tia Ciata, cozinheira e mãe de santo, um pedaço da África na então capital do País.

As sequências mais fortes mostram prostitutas se organizando para assistência médica e um cemitério judaico. O texto deixa passar em branco um dado gritante: as mulheres escravizadas aceitavam na comunidade e no cemitério os seus algozes, sórdidos gigolôs, mas da mesma origem. Mistério cultural ou psicológico com potencial dramático não utilizado.

A democracia "coletiva" de listar os intérpretes sem os papéis que cada um representa impede mencionar os responsáveis pelos melhores desempenhos. Por sorte, o bom nível predomina. Com ares de folhetim, com os Mistérios do Rio, de Benjamim Costalatt, exaltando a abnegação das mães de leite, As Polacas arranha a lenda das francesas e faz justiça às jovens polacas e batalhões de mulatas pisadas nas pedras pisadas do cais.

Em 1835, resolveu o Governo Imperial acabar com aquela vasta superfície alagada, reduzindo-a a um estreito canal que recebesse as águas pluviais e a dos riachos da redondeza. Só em 1857, porém, isso se realizou: Irineu Evangelista de Souza (depois barão e visconde de Mauá) obteve concessão para construir, por administração, esse canal, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 21 de janeiro.

Transcorridos três anos, inaugurou-se, em 7 de setembro de 1860, o Canal do Mangue, que custou 1.378 contos de réis, tendo sido as obras dirigidas pelo engenheiro inglês William Gilbert Ginty.

AS POLACAS – FLORES DO LODO

Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822, 3340-2000. Sáb., 21 h; dom., 18 h.

R$ 4/ R$ 16. Até 9/9.

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