Marcos Arcoverde/AE
Marcos Arcoverde/AE

Peça 'A Casa dos Budas Ditosos' volta ao cartaz SP

Fernanda Torres fala da peça, de descriminalização de drogas e do papel de Viúva Porcina no cinema

Leandro Nomura, do JT,

19 de novembro de 2009 | 14h08

No cinema, a atriz Fernanda Torres, 43 anos, se prepara para interpretar um dos papéis mais lendários da TV brasileira: a Viúva Porcina, de Roque Santeiro, que vai ganhar versão para as telonas em 2010 pelas mãos do diretor Daniel Filho. Na TV, depois de imortalizar Vani, de Os Normais, Fernanda vai viver uma atriz que fará uma novela passada no Paquistão no especial de final de ano Odeio Você, com chances de entrar para a grade da Globo no ano que vem. No teatro, volta para três apresentações em São Paulo do sucesso A Casa dos Budas Ditosos, texto de João Ubaldo Ribeiro sobre sexo, "uma coisa de utilidade pública". Nesta entrevista, feita por telefone na quinta-feira, a atriz fala de drogas, da estreia como dramaturga na peça Deus é Química, que ficou em cartaz no Rio, e ainda questiona a opinião de Fernanda Young, que gostaria de ver um ensaio nu da filha de Fernanda Montenegro: "Com que cara fazer?".

 

Por que voltar com ‘A Casa dos Budas Ditosos’?

Não fazia há um ano e meio. Fiz pouco antes porque engravidei. Ainda não se esgotou nem pra mim nem para público. Tenho saudade de voltar. É como cantar uma ária. O texto do Ubaldo é quase uma partitura de música. Me sinto como se eu fosse executar novamente essa peça de música.

 

O brasileiro gosta de falar e de ouvir sobre sexo?

Não só o brasileiro, acho que a humanidade. Sexo hoje é um dos poucos assuntos que permeiam toda e qualquer classe social, faixa etária, gênero. Ouvir as considerações de um baiano sobre sexo, no caso, o Ubaldo travestido dessa personagem, é uma coisa de utilidade pública. Os baianos sabem de sexo mais do que o resto da humanidade. Sexualidade na Bahia é para profissionais. Eu afirmo isso. Eles são PhD.

 

Tem saudades de personagens?

Dos que já esgotei, não. Dela (a personagem da peça) eu tenho.

 

E da Vani (de ‘Os Normais’)?

Não sei. Quando fiz o filme, foi incrível quando eu e o Luiz (Fernando Guimarães) voltamos a nos chamar de Rui e Vani. Ali não se esgotou.

 

Sobre ‘Os Normais’, vem mais por aí?

Não sei. Sou o fim da cadeia alimentar. Com Os Normais sempre foi assim. Foi um superconvite. Sou uma superconvidada, parte do clã, mas eu não decido.

 

Em ‘A Casa dos Budas Ditosos’ e em ‘Os Normais’ a sexualidade é muito forte. No especial ‘Odeio Você’, o sexo vai estar presente?

Não. Será sobre o bastidor da TV. São duas atrizes, eu e Andréa Beltrão, que fazem uma novela passada no Paquistão. O Alexandre (Borges) faz o triângulo amoroso.

 

Será mais de um episódio?

Vamos fazer um de fim de ano e existe o desejo de entrar para grade, fazer uma temporada. Mas existe o desejo e, como tudo, tem de concretizar. Não é nada que está sendo decidido agora.

 

Tem vontade de fazer novela?

Às vezes. Tem conversas, mas não tem nada certo. É incrível participar, como um amigo meu dizia, da prata da casa. É a coluna grega. Dar conta de uma coluna grega dá vontade, sim. Mas fazer novela é um negócio que exige maturidade. É um trabalho árduo e de muita exposição. Tem de ter domínio de técnicas tanto de atuação quanto de pessoa.

 

Mas tem muito ator fazendo novela com 18 anos.

E tem de ter, pois é um retrato da sociedade. Eu fiz Selva de Pedra (1972), Eu Prometo (1983) e Brilhante (1981).

 

Você já tinha maturidade desde aquela época?

Eu não tinha. Eu levei um susto. Fiquei impressionada.

 

Meio traumatizada?

Minha vida foi para outros lados. Fui fazer teatro, ganhei Cannes (em 1986, com Eu Sei Que Vou Te Amar), fiquei anos viajando. Nunca tive razão para fechar contrato longo para uma novela. Hoje, entendo melhor a mecânica. Um ano não parece uma vida como parecia quando eu tinha 20 anos.

 

E como será sua Viúva Porcina no filme ‘Roque Santeiro’?

Estou me aproximando do projeto. Acabei de ler a peça. Achei incrível o que eles tiraram de lá para fazer a novela. E os personagens do filme não são os do teatro. Eles são uma mistura do que os atores fizeram na TV com o que era no palco. Estou esperando ver o roteiro para ver como é.

 

Como vai fazer para a sua personagem não lembrar a Viúva Porcina da Regina Duarte?

Isso é uma coisa do Daniel. Ele vai situar a mesma história para o cinema, não é teatro nem TV. É um projeto corajoso.

 

Gostou de ser dramaturga em ‘Deus é Química’? Vai repetir?

Adorei fazer, mas não sei, pois não tenho esta pretensão de virar uma autora. Fiz porque tinha assuntos que achava que eram interessantes e relevantes. Não havia uma peça sobre isso.

 

Quais assuntos?

Drogas, antidepressivos, a questão dos psicoativos. É uma panela de problemas. Antigamente, eu teria um grupo de teatro e a gente ficaria improvisando por seis meses. Meio que fiquei improvisando uns dois anos sozinha e escrevendo o que estava pensado. Eu tenho muito receio de dizer: "Estou escrevendo uma peça". Não tenho nenhuma ideia para fazer outra. Nem um desejo.

 

Você disse que já consumiu drogas e que seus pais sabiam disso. Se daqui a um tempo o seu filho disser que está usando drogas, como será sua postura?

Esse negócio ficou meio sensacionalista. Pareceu que tive problemas, quase me internado. Não é assim. O que eu disse e repito é que acho que, na nossa sociedade, a droga existe para o jovem, é um ritual de iniciação da vida adulta. É um problema que muitas pessoas que moram nas cidades vão enfrentar. Eu disse que tinha passado por essa peneira. Como o índio que põe a mão no formigueiro para virar homem.

 

É um ritual necessário?

Não sei. Para algumas pessoas. A questão é que elas estão aí e não se consegue se livrar delas facilmente.

 

A legalização das drogas pode ajudar a sociedade?

Não tenho ideia. Acho que é melhor aproximar de uma questão médica do que criminalizar. É parecido com o que fizeram com o cigarro. Hoje, tem menos risco de um adolescente fumar, porque o glamour diminuiu e muita gente acha que é uma atitude burra. Acho que um adolescente que fuma é menos "in" na turma dele do que era antes.

 

Mas você não me disse como seria a sua postura caso o seu filho dissesse um dia que usa drogas.

Jamais discutiria isso com você.

 

Atores de prestígio, como você e sua mãe, que conseguem atrair o público pela presença no palco, precisam pedir incentivos pela Lei Rouanet?

Satanizar um comportamento como se fosse oportunista é uma loucura. Acho que artistas como eu e minha mãe podem ter acesso a isso, porque essa é a política vigente e hoje uma bilheteria não paga uma produção. Não é uma coisa: "Ela não precisa". É mentira, porque não é ela, é o processo. Não pego 20 pessoas no Deus é Química e pago o avião, o hotel, pois a empresa aérea também está organizada dentro da diretriz. A questão cultural da empresa se resolve através das leis vigentes. Acho que estamos num processo de rediscussão e vamos funcionar de acordo com as novas leis.

 

A Fernanda Young disse que tinha vontade de ver um ensaio nu seu. O que acha?

Engraçado, quando era mais nova, posar nua era uma atitude libertária. Era comum atrizes inteligentíssimas, interessantíssimas, fazerem fotos nuas. Vinha da revolução de costumes dos anos 60. Depois, se comercializou muito, como tudo no mundo. Hoje, é um contrato. Tem de ter a foto da bunda. Então, não sei bem. Não fiz lá, pois era nova demais para aquela onda. Hoje, eu não sei se estou velha demais. Como diz a Cissa Guimarães, o problema é a cara. Com que cara fazer?

A Casa dos Budas Ditosos. Citibank Hall: Av. Jamaris, 213, Moema. 2846-6000. Sexta e sáb. (21), às 22h; dom. (22), às 20h. 18 anos.  Preços: de R$ 60 a R$ 120. www.citibankhall.com.br

 

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