Dene Santos/ Divulgação
Dene Santos/ Divulgação

Peça ‘A Bala na Agulha’ vira ringue para teatro e TV

Espetáculo de Otávio Martins contrapõe gerações

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2013 | 23h06

Paulistana nascida em 1954, Denise Del Vecchio viveu uma época áurea da cidade. “Eu estava falando para o Alexandre (Slaviero) sobre o Riviera, que vai reabrir, e ele nem sabe o que foi o bar. E ele me fala sobre o telefilme que está fazendo. É uma doideira essa troca”, diverte-se. Ela se refere ao estabelecimento que, entre tantas outras histórias, recebeu Chico Buarque após a vitória de A Banda no Festival da Record. Inaugurado em 1949, na esquina da Paulista com a Consolação e fechado em 2006, o bar reabre na próxima semana.

Alexandre Slaviero é o ator com quem ela trabalha em A Bala na Agulha, que estreou na sexta, 20, no Tucarena. O enredo conta a história de um ator idoso que contracena com um jovem, mas não enxerga essa relação da mesma maneira que Denise.

No texto de Nanna de Castro, o veterano dos palcos Chico Valente (Eduardo Semerjian) encena Esperando Godot, clássico de Samuel Beckett, com o novato e televisivo Cadu Fischer (Slavier0). A peça segue até que Chico, amargurado com a idade e a falta de reconhecimento, inicia um duelo com Cadu.

Nanna teve a ideia do enredo ao ver uma amiga largar um emprego estável para se aventurar como atriz, mesmo tendo filhos pequenos. “Quis retratar a coragem quase suicida de fazer esta arte que não dá dinheiro”, diz a autora. A partir daí, fez pesquisas e esbarrou em uma entrevista na qual Paulo Autran se mostrava descrente de um trabalho que Paulo Vilhena faria no teatro. Os Paulos foram o ponto de partida para o enredo que, além de contrapor o novo e o velho, põe em evidência um conflito antigo da classe cênica: o teatro e a televisão.

Entre os dois personagens está Célia de Castro (Denise), uma atriz dos tempos de Chico, mas que, por fazer TV, transita bem entre as duas gerações. “Ela percebe que o Chico é dogmático e, assim como eu, aproxima-se dos jovens para não deixar a cabeça ficar velha”, diz.

A proximidade entre ator e personagem não fica restrita a Denise. Assim como na ficção, Slaviero é cria da TV e, Semerjian, do teatro. Segundo o diretor Otávio Martins, a escolha do elenco privilegiou essas semelhanças, com o cuidado de não selecionar alguém muito óbvio para o papel de Chico, evitando a associação do público com o “velhinho triste”.

O preconceito que Cadu sofre na peça é o mesmo que Slaviero sofreu no início da carreira. Em 2002, aos 18 anos, ele integrou o elenco da novela O Beijo do Vampiro, mas ficou conhecido pelos quatro anos em que participou de Malhação. “Além de vir da TV, eu fazia um produto que não era bem visto”, diz. “A televisão traz um reconhecimento muito rápido e, às vezes, ainda não se tem bagagem suficiente para isso. A fama não vem pela estrada, mas pelo rosto na tela.”

Com pés fincados no palco, Semerjian confessa já ter dito que não faria TV. “Muitos atores passam pelo dilema de amar o teatro e ter de se render à televisão por dinheiro”, diz o ator, lembrando de quando deixou o elenco de 12 Homens e uma Sentença para integrar a equipe da minissérie Rei Davi, da Record.

Montagem de metateatro, A Bala na Agulha não economiza nas referências do universo cênico. Trechos de obras de autores como Ibsen e Chekhov invadem a fala dos personagens de maneira natural, sem tom de citação. A tradicional campainha do teatro também está presente na peça: é usada para que o trio se comunique com Eden, um contrarregra que não aparece fisicamente em cena.

A BALA NA AGULHA

Tucarena. Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, 3670-8462.

6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 40/R$ 50. Até 1º/2.

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